Uma Bela sem Senão

O Ziggy que não existiria com o Spotify

O Ziggy que não existiria com o Spotify

Esta coisa do iTunes mas sobretudo do Spotify (não gosto do Apple Music que é, a par daqueles relógios pindéricos, uma das poucas inovações da Apple com que implico) tem inúmeras vantagens. Eu, agarrado me confesso, não largo o Spotify. Como qualquer ser humano, e como lembrou o Eco, sofro de uma vertigem por listas. Gosto recuperar, um a um, todos os meus Stones de vinil ou as 1001 versões da melhor música de todos os tempos que cá em casa sempre foi o Sympathy for the Devil. Gosto de brincar a Deus e ressuscitar o Reed. Gosto de reconstruir com um zelo de maníaco toda a história do Jazz em prateleiras virtuais em que colo etiquetas que vão do Ragtime, passam pelo Bebop, pelo Free Jazz  e por todos os demais sub-géneros que consigam imaginar. Faço o mesmo com a ópera. Faço misturas tipo Bimby. Ele é ver os Arcade Fire a tocar com os The War on Drugs, o Nick Cave de braço dado com Band of Horses e Kurt Vile. Orgias musicais de que só eu me lembro. Ah! E fico fora de mim quando o Artist formely known as Prince, o herói mais kitsch do meu Olimpo, se zanga com o Spotify e me desaparecem todas as baladas que eu adorava saber cantar de smoking branco, bigodinho à Hitler (não, não é aí) e uns anéis de fazer inveja à Imelda Marcos.

Adiante. O problema existencial que me tira o sono é que esta coisa não é só vantagens. Com a vertigem das listas perdeu-se para sempre a ideia, ou pelo menos a materialização da ideia, do Concept Album. Custa-me muito admitir isto mas a verdade é que se o Spotify tivesse nascido nos anos 60 nunca teríamos tido o Lamb Lies Down on Broadway, o Dark Side of the Moon (muito menos o The Wall), o The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, nem o Sgt Pepper’ s Lonely Hearts Club Band.

Lembrei-me disto ontem ao ver o belo Perdido em Marte de Ridley Scott por razões que perceberão facilmente quando virem o filme e dei comigo fodido (desculpem-me mas é mesmo a expressão que me apetece usar) a pensar que, um destes dias, vou mesmo inventar uma bela sem senão.

 

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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2 respostas a Uma Bela sem Senão

  1. Paula Santos diz:

    Uma bela sem senão não é bela. Se assim fosse esta crónica não seria escrita e eu não teria tido o prazer de a ler.

    🙂

  2. Pedro Norton diz:

    🙂 obrigado!

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