V5

Ó Eugénia, um jipe em Lisboa... que horror! Até o Cão lhe pede joelhos, não, isso não. Não é um jipe, Rita, ao que parece é uma moradia, é uma V5! E com porta bagagem, perdão, logradouro...

– Ó Eugénia, um jipe em Lisboa… que horror! Até o Cão lhe pede de joelhos, não, isso não. – Não é um jipe, Rita, ao que parece é uma moradia, uma V5! E com porta bagagem, perdão, logradouro…

V5

Precisava do futuro, que prevejo mais despojado, agora, já. Aquele tempo em que não teremos de nos preocupar com a posse, apenas com o civilizado usufruto. Paradoxalmente, hoje, só pode viver despreocupado da propriedade quem tem um monte de dinheiro ou quem se faz asceta – não caibo em qualquer das duas categorias.

Viveria lindamente num hotel. Um malão de livros transumantes e música e filmes ao alcance tecnológico de um play, roupa para a estação. Não preciso de acumular. Nem sei como. Eu, que sempre gostei das minhas porcelanas, dos meus santos no oratório, das minhas roupas de cama, e enfim, de toda a parafernália doméstica em mínimos detalhes de milhares de pontos em meio ponto no Aubusson mais que perfeito… quem poderia supor? Eu nunca. Como me conheço mal!

Sairia, se o futuro fosse neste instante, da zona privada dessa minha casa futura, maravilhosamente insonorizada, para a zona comunitária dessa mesma casa, bom-dia aqui, bom-dia ali, yoga no telhado com vista para céu. E depois, se o dia não estivesse para bicicleta, apanharia um carro automático, sem condutor, limpo que no futuro continuarei com uma ligeira mas certa mania das limpezas, e iria ao mercado.

Porém, hoje ainda é ontem. Vasculho Lisboa por uma pechincha, em linguagem decente, um bom negócio.

Vejo e não acredito que afinal o futuro já chegou mas é diferente e o negócio é mau: um extraordinário apartamento tem vinte e três metros quadrados, vista para uma parede. Não é insonorizado. Não tem o restante espaço em uso comunitário. Aquele é todo o espaço, é tudo ali, sala, quarto, casa de banho, cozinha, arrumos, uma vida em papel milimétrico, sem um varandim e em chão de parquet flutuante – quero o meu Aubusson de volta, e todos os pronomes possessivos: o meu serviço de chá, as minhas estantes e o oratório em fogo aceso.

Acho que vou ficar a viver no carro. O porta bagagem, se lhe acrescentar uma planta envasada, é quase um logradouro.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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4 respostas a V5

  1. riVta diz:

    Não resisti a ver o que tinha escrito sobre a longa noite de Jeep em Lisboa. Na rodinha dei uma palhaça para trás, que é como quem diz, um grande trambolhão e depois de bater com a cabeça na aresta do passeio, não é que já acho que lhe assenta tão bem um condomínio verde nesse logradouro com rodas? Concordo afinal! Sempre me pode levar no meio das alfazemas e alecrim ao hospital. 🙂 Já sff.

  2. Senhora A. diz:

    Quer mais alguma coisa? 😀

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