11 de Novembro

Her_is_4_de_Fevereiro

Esteve agora, a cada segundo, a cada minuto do dia 11 de Novembro que passou, a fazer 40 anos.

Vinha com os amigos que fizera no Lobito. Eramos três ou quatro e recuávamos com os nossos guerrilheiros, enquanto, do sul para norte, sobre nós avançava a Unita e os carcamanos, as loiras tropas sul-africanas. Nós eramos do “éme”. Páramos no Sumbe, a que então ainda chamávamos Novo Redondo. Havia o rio e, pensámos, “se fosse preciso rebenta-se a ponte” para que o desconexo inimigo não nos esmagasse. Em Luanda, Agostinho Neto declararia a independência, se no Caxito os katyuchas, os órgãos de Estaline, tivessem poder de fogo para conter a frente zairense, que descia de norte para sul. Faltava uma hora e, de sul para norte e de norte para sul, estava a dipanda por um fio.

Jantámos nessa noite? Eu que me lembro de tudo, não me lembro de nada, se foi arroz ou feijão, uma posta frita de “cinturão das fapla”. Só me lembro da mão agarrada à bonita Vigneron que, na verdade, nunca cheguei a disparar. Nem mesmo quando, nos velhos transístores Hitachi, se começou a ouvir o discurso de Neto – nós eramos do “éme” – o coro do povo a cantar o velho “na manhã do 4 de Fevereiro”, depois ou antes o novo hino “pátria unida, liberdade, um só povo, uma só nação”. E os miúdos do mato, camuflados novos, aká nos colos, enchiam o céu e a meia-noite de balas embrionárias – alegria inexplicável de serem senhores de si mesmos, senhores de nada a não ser dos corações em júbilo de serem angolanos, “levantemos nossas vozes libertadas”.

Pensei? Se pensei, o que pensei há 40 anos, na desconhecida cidade do Sumbe, eu, rapaz branco de Luanda, com ano e meio revolucionário de Lobito? Vi respirar, de pulmões a arder, um mundo novo? Ou caiu sobre mim a quadrúpede tristeza de saber que acabava o meu velho mundo? A lepra e a loucura do velho mundo que, odiando, eu tanto amara, esvaíam-se, espantadas, pelas torneiras abertas da História.

Foi a 11 de Novembro de 1975. Eu tinha 22 anos. Estava sozinho. Era o macaco nu de mim mesmo. Ali, ao pé de mim, na cidade do Sumbe, só tinha uma amigo que conhecia há cinco anos, nem um  cheiro de infância, nem uma gota de sangue familiar a soprar no ventania que vinha do mar. Pode ser aterradora a tão sedutora ideia de uma pátria nova, de um povo novo, “avante, avante, revolução”.

Deitei-me na pátria nova, no quarto arrombado do velho hotel colonial. Não sei se dormi. Mas que outra coisa é o sono que não seja o silêncio inteiro do mundo? Que tenebrosa doçura era essa que me invadia o coração: tanta saudade  do antigo mundo que rebentava já de esquecimento, tanta cruel e crua esperança na palavra liberdade, no tão jovem rosto de uns miúdos e miúdas negros que eram (eram, sim!) progressistas romãs em fogo.

Foi há 40 anos, eram símbolos, era a História, e eu, entre a felicidade e o esplendor, julgava estar à beira de compreender tudo. Antes, às quatro horas da tarde, um resignado funcionário português mantinha aberta  a última estação dos velhos CTT. Ainda aberta, podiam mandar-se telegramas.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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3 respostas a 11 de Novembro

  1. EV diz:

    Já li. E já reli. Fartei-me de gostar.

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