A Bata

A Bata

Helga tratava da limpeza diária dos quartos e das instalações sanitárias do Bloco C. Tinha outras tarefas diárias, como a limpeza da enfermaria, do bloco operatório, do laboratório do Piso 2, mas era da convivência próxima com os doentes de que ela gostava mais. Saía sempre depois da hora e corria a apanhar o barco que ligava as margens do rio.

De manhã, quando chegava ao Hospital, trocava a roupa que trazia de casa pela bata azul, tomava um café pingado na máquina de vending do Piso 0 e começava pelo último andar como método de trabalho. Cada piso tinha uma arrecadação de limpeza e era lá que se abastecia para poder carregar o carrinho.

Gostava de começar pelos quartos. Encontrava muitas vezes os doentes já acordados entre gemidos e comprimidos e retirava-se sempre antes da hora da visita do senhor doutor. Era invisível para enfermeiras e médicos mas gostava da rotina do hospital e não se queixava de nada.

Naquele dia, ao ajudar a transportar um ferido da ambulância para a entrada das urgências, Helga tinha manchado a bata. Não era costume estar naquela zona do hospital mas os colegas das urgências pediam sempre ajuda quando o movimento por razões pontuais era fora do comum.

Ninguém ficava indiferente ao som das sirenes a chegarem ao hospital ao mesmo tempo e foram várias as pessoas que assomarem às janelas a ver o que se passava àquela hora. Não podia ajudar mais e desceu à cave para trocar de bata. Já na sala dos cacifos, foi só quando abriu o cadeado que se lembrou que não tinha consigo a outra bata de serviço.

Olhou em redor e para a bata que tinha despido. Não a conseguia lavar e secar a tempo de voltar ao trabalho. Não hesitou. Correu a vestir a bata (de médico) que estava a secar no cabide atrás da porta, rezou para que lhe servisse e voltou a correr para o carrinho que tinha deixado encostado no piso da enfermaria principal.

Havia de conseguir outra bata azul junto de uma colega ou mesmo na arrecadação principal. A cave não tinha acesso de elevador. Teve que subir as escadas e atravessar o hall principal. Vinham-lhe à cabeça as imagens dos feridos a chegar e apesar de estar habituada a ver doentes em estado grave ainda não se tinha habituado a lidar com as fracturas expostas dos desastres de viação. Era mesmo o que mais lhe custava.

No corredor de acesso aos pisos superiores sentiu uma empatia fora do normal com os médicos internos, as enfermeiras e os membros das famílias com quem se cruzava no corredor. Cumprimentavam-na com um sorriso afável e na entrada para o elevador o doutor dos olhos azuis que tratava do menino com leucemia, fez-lhe sinal para passar à frente. Um verdadeiro gentleman, pensou, e sentiu-se princesa por uns momentos.

Ela retribuiu simpática, os olhares. Achou que se tinham lembrado que aquele era o dia dos seus anos. Mas não era possível. Nem ela se lembrava. Abriu a porta da arrecadação principal e despiu a bata branca. Foi buscar o carrinho da limpeza que encontrou sem vassoura e sem pá e foi fazer a limpeza para a qual lhe pagavam 505 euros por mês, e só nesse momento percebeu. A bata … claro! A bata era branca. E sorriu.

Sobre Rita Roquette de Vasconcellos

Apertava com molas da roupa, papel grosso ao quadro da bicicleta encarnada. Ouvia-se troc-troc-troc e imaginava-me a guiar uma mobylette a pedais enquanto as molas a passar nos aros não saltassem. Era feliz a subir às árvores, a brincar aos índios e cowboys e a ler os 5 e os 7 da Enid Blyton. Cresci a preferir desenhar a construir palavras porque... escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Ficção. ligação permanente.