Cerejas do meu fim-de-semana

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Mark Relyance, actor, impávido a roçar o nirvana

Não vou dizer que o Pedro Norton é uma cereja, mas a verdade é que se não fosse o post dele aqui, nunca teria aparecido este post que agora têm debaixo dos vossos olhos. Os posts são como as cerejas, sobretudo quando um post, como é o caso do que ele escreveu sobre uma cotovia e um espião, vem de coração mais vermelho e doce do que qualquer cereja. E disse isto sem dizer ao que prosaicamente vinha. Se a alguma coisa vinha era falar do meu fim-de-semana. Ouço-me eu se não me quiserem ouvir.

Foi um fim-de-semana de ensaios. Como também foi de alguma arte. Talvez tenha sido, até, um fim-de-semana de arte e ensaio. Vi dois filmes, como nos tempos em que, com o João Bénard, via cinco. Arrisco dizer que ele gostaria dos dois.

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No olhar de mia madre, o olhar de minha mãe

O João gostaria de “Mia Madre”, o filme de Nanni Moretti em que a hirsuta barba de um homónimo Nanni Moretti, estranho actor, e os translúcidos olhos azuis de Margherita Buy vêem morrer a mãe deles. E parecia ser a de Nanni Moretti “mia madre”, até que eu, de resistência em resistência, numa tarde de fim de semana, acabei por lhe roubar a “madre”, para dela fazer a minha mãe. No olhar daquela “madre” estava o olhar de mãe que, morrendo e morrendo-me, eu vi espantar-se, estranhar, irreconhecer a triste, parva, envelhecida realidade, o mundo a correr em câmara lenta pelo apertadíssimo oríficio de uma ampulheta, o mundo a desvanecer-se como imagem, como espelho, como eu que já não reconhece nem tu, nem ele, nem nós, nem vós. Se chorei? Mas eu sou lá alguma cereja de Pedro Norton?!

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veio-me desta neve uma descomandada saudade da Guerra Fria

Ah, e o que o João teria gostado deste filme que Spielberg fez só para o pomar do Pedro Norton. Sim, o João Bénard cada vez gostava menos de filmes americanos, e cada vez gostava mais de inenarráveis cerejas europeias, de um pasmoso pomar iraniano. Mas deste Spielberg gostaria. O João gostava, como eu aprendi a gostar, de espiões. E gostava de pontes, como a ponte do “Man Hunt”, de Fritz Lang (o que os alemães percebem de pontes!). Era, a de “Man Hunt”, a ponte de um espião – um tipo que quer matar Hitler que coisa é, se não for um espião? –  e de um puta costureira (também as há, e a desta era uma história comprida, que eu não consigo, agora e de repente, tornar curta). Não há putas, nem quase mulheres, neste filme de homens de Spielberg, mas há pontes, há espiões e há Guerra Fria. E a mim, na tarde de outono e sol de um fim-de-semana de Novembro, a ver “Bridge of Spies”, veio-me uma descomandada saudade da Guerra Fria, que gelava os homens do meu tempo, como gela os homens deste filme de Spielberg, a começar por esse advogado que Pedro Norton converteu numa cereja. E se alguma coisa nos aquece – neste filme em que temos tanto estremecido prazer a ter frio – é o rosto impávido, vagamente distante e ausente, a roçar o nirvana, de David Mark Relyance Waters, actor, prova provada da superioridade do teatro sobre o cinema: o bem, Deus meu e meu Deus, que o teatro, o palco calvinista, faz aos actores, privando-os de fama, privando-os de glória, esmagando-os em tábuas, camarins nus, em escassez, em missão e em ascetismo. E esta foi, minha, como do Pedro Norton, a cereja sublime do fim-de-semana.

(c) The National Trust for Scotland, Haddo House; Supplied by The Public Catalogue Foundation

a ágil agulha de Maria, virgem, cheia de sonhos

Bastaria. Mas um estranho título, “Uma Colecção Inglesa”, levou-me à Gulbenkian. Era vago, título que se dá quando não se tem título. Depois entrei e vi-me rodeado de títulos, os títulos de uma aristocracia inglesa como não há outra, em retratos de corpo inteiro, tronos e paisagens a fazer quentes as costas que só podiam ser quentes, de tanto luxo e consciência de se saber poder, de se saber sentado em cima do mundo. Títulos também, a cercar-me, os de quem, por encomenda, os retratou. De Anton van Dyck, Van der Velde II, van Ruysdael, Hans Memling, parada holandesa e flamenga a prestar tributo a Inglaterra. Mas a cereja, que tenho a certeza seria também a do João e será a que, quando lá for, o Pedro Norton há-de saborear, é um retrato em que Catarina de Bragança está muito mais bonita do que algum dia eu me atrevi a pensá-la. E minto, e fiz de propósito, por saber que toda a mentira é perdoada, se for para, depois, mais se louvar a beleza da Virgem. E a Virgem é Maria, cheia de prendas e graças, no templo, antes do “Senhor é convosco”, a costurar. Belíssima, sem dúvida casta, mas na mão a ágil agulha cheia de sonhos de enxoval. Sonhos de cerejas, também. Quem é que cose e borda e faz ponto cruz se não for a pensar em cerejas? Das que se mordem, obscenamente líquidas e doces.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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Uma resposta a Cerejas do meu fim-de-semana

  1. pedronorton diz:

    Bem, não sei que diga. Nunca me tinham chamado cereja. Ainda estou a processar.

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