Crónica de uma loucura anunciada

 

 

Frank Rumpernhorst. D'après Homem desesperado de Courbet

Frank Rumpernhorst. D’après Homem Desesperado de Courbet

Mas louco como? Pode ficar-se louco assim de um dia para o outro? Em hora programada e sem qualquer sintoma? Sem achaques? Sem dores nem pontadas? Que sim, que sim. É raro. É um distúrbio raro. Mas acontece. Amanhã pelas 15:29 estará louco. Não vai sofrer nada. Imagine a coisa como uma viagem. Melhor, um relâmpago. Viajará para outro mundo. Assim. Pim, pam pum. Tudo o que é deixa de ser, tudo o que foi deixa de ter sido e o amanhã, bem o amanhã será igual ao depois de amanhã. Vá, seja forte. Não faça essa cara. A única coisa sem solução é a morte.

F. deixou-se ficar. Sentado, atordoado. Pareceu-me imaginá-lo a chorar. Mas não juro porque a minha cabeça também já não é o que era. Sei que ficou. Muitas horas depois do médico sair. Só lhe peço que apague a luz, sim? Porra. O passado que se lixasse. O presente era como o outro. Aliás sempre pensara nele como um intervalo minúsculo na grande ópera da vida. Era o amanhã que lhe doía. Azul, negro, intenso. Como um tumor imenso. A latejar.

O futuro não seria. Não seria o futuro que podia ter sido. E que bonito podia, devia, merecia, ter sido! As noites inteiras de Maio, sonhando, detalhadamente, ao relento, a dois, com um amanhã que parecera tão concreto. Tão possível. Tão seguro. As mãos. As conversas. As promessas. Cada gesto e cada sorriso. Cada madrugada e cada gargalhada. Todos os amigos e todas as férias. Projectos a perder-se para além da dobra do mar. A vida a fazer-se, lentamente, delicadamente, timidamente, a dois, a três, a quatro até se fazer muitos, até se fazer camarata e depois solar. A fazer-se, preciosa, de pequenos mas luminosos nadas. A vida a fazer-se galáxia de amor. O futuro a fazer-se eternidade porque outro sentido não tinha, não podia ter. Era uma questão de uns quantos, poucos, amanhãs. O futuro era já ali, ao virar da esquina. Á distância de uma palavra apenas sussurrada.

E agora isto, porra! O sussurro nunca veio. O amanhã era afinal um cometa. Aproximara-se da terra, planeara com ela, num silêncio que era sideral e era só deles, a colisão iminente. A alunagem. A amaragem. Mas eis que vem o médico e o mundo lhe foge sem dizer ai nem ui. O planeta movera-se. O cais afogara-se. Num gesto rápido, inesperado e raro. A elipse tresloucara-se e ele partia agora, astronauta desvairado, solto de cordão umbilical, em relação a um futuro alternativo que era um buraco cor de insanidade.

Será negra a cor da loucura? Será de um azul profundo? Será dor? Será nada? Será que isso verdadeiramente importa se não há amanhã? O que lhe doía não era a aproximação do futuro. Não era angústia. Era o avesso. Era o futuro a fazer-se passado. Era sentir, hoje mesmo, o futuro condenado a ser uma profecia por cumprir. Era assistir, impotente, paralisado de tão mudo, ao adormecer de todos os magos e de todos os astrónomos. Era o apagar de todas as luzes da rua.

Pior que a morte é a eternidade que nunca chega a ser. Mas isso, só F. verdadeiramente o compreendia.

Fechou a luz e com ela todos os amanhãs do universo. O resto, imaginei-o eu. Quando tentei rezar-lhe a memória.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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3 respostas a Crónica de uma loucura anunciada

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Eu não quereria ser o “homem desesperado” deste conto, mas cada vez penso mais nisso: e se em vez do sossego da morte me sai um infindável, interminável, chatérrima eternidade? A culpa, agora, é toda sua, Mr. Norton.

  2. pedronorton diz:

    O inferno não é a eternidade. O Inferno sãos os passados por fazer. Despachemo-nos.

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