De pé, de pé, ó jovens deste Tempo Novo

william blakeDe vez em quando vale a pena um leitor espalhar-se ao comprido no hall de mármore deste Escrever é Triste. Explico-me: de vez em quando dá-me para copiar artigos bons, como é o caso deste, sobre William Blake, publicado no New York Review of Books.

Prosa sedutora, cheia de curvas, cem quilos de boa e inteligente informação. Tão boa que copio tudo, até a imagem que o ilustra, esta aguarela de Blake para ilustrar o Paraíso Perdido de Milton, em que vemos Adão e Eva em afagos de bocas, seios, ancas, na calma preparação, na lenta maturação tântrica que Blake, diz-se, prezaria e praticava ou gostaria de ter praticado.

Richard Holmes, o autor da recensão, entrou em Blake, como eu, pelos tigres. Os dele não coincidem com os meus. Os dele são tigres de murais, tigres de pichagens, tigres de cólera, de raiva:  “The tigers of wrath are wiser than the horses of instruction.” A mim, rato de biblioteca, saíram-me tigres ao caminho nas pequeninas páginas de um livro, tigres com a desmedida simetria de um verso: “Tiger, tiger burning bright / in the forests of the night.

Por diferentes que sejam os tigres, o meu Blake, como o de Holmes, também passou pela contracultural domesticação de Theodore Roszac. Hoje ninguém sabe quem o homem é, e se está vivo deve ser um velhinho manso, tão manso e amoroso com eu, claro, mas Teodoro, Teodoro, se o juntarmos ao budismo zen de Allan Watts e ao Leary do LSD, fez as cabeças, as de baixo e as de cima, das jovens gerações californianas, nos loucos anos 60, em que até o incomunicável Antonioni filmava orgias em Desert Valley. Com Roszac, tão depressa tínhamos a boca em Blake como a virilha nos Doors ou o corpo em levitação – sim, eu levitei.

Mas já me desviei e não quero fugir aos tigres.  Aproveitando a recensão a três livros, um deles recolhendo poemas de Blake, seleccionados e apresentados pela Patti Smith que há dias ouvi, magnífica, no Coliseu, a cantar aos cristãos, Holmes escarafuncha com um dedo duas feridas de Blake: a ferida poética e a ferida iconográfica. Para concluir o que é impossível não concluir, que Blake foi um visionário. E que é ainda um visionário – por não ter afinal morrido; diria que, praticamente esquecido quando foi a enterrar, ressuscitou no século XX. Invento? Um bocadinho mas tenho, como qualquer moço forcado, boas ajudas: Blake foi um impenitente e radical revolucionário, antecipou feminismos ou coadjuvou-os, renovou ou potenciou mitologias, procurou ou encontrou o êxtase em iluminadas canções de inocência, foi pintor do Paraíso e gritou provérbios no Inferno. Incitou e incita à revolta:

Rouze up, O Young Men of the New Age! Set your foreheads against the ignorant hirelings! For we have hirelings in the Camp, the Court, and the University, who would, if they could, for ever depress mental, and prolong corporeal war.

que traduzo assim, à la jovem Marx

De pé, de pé, ó jovens deste Tempo Novo! Ergam a nobre fronte contra o ignorante mercenário. Temos mercenários no Acampamento, no Tribunal e na Universidade, e hão de, para sempre, se puderem, deprimir-nos a mente, fazer eterna a guerra ao corpo.

Eu podia continuar, mas estou a fazer-vos perder tempo. Façam o favor de sair do Escrever é Triste por esta porta. Dá direitinha para um salão do NY Review of Books.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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Uma resposta a De pé, de pé, ó jovens deste Tempo Novo

  1. EV diz:

    Manuel Fonseca, Blake, não é segredo, é um dos meus queridos. E uma pessoa chega aqui e quer dizer de Blake, disto e mais tigres e aquilo, e zás!, fica-se seduzido pelas curvas mas é da sua prosa… Fartei-me de gostar!

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