Deus tinha adormecido e esquecera Paris

Praga, 1996.

Praga, 1996.

Era fim de tarde nalgum lugar do Mundo e um pastor conversava com uma sarça ardente.  Um café, um cigarro, talvez um pastis. Um rodopio de saias, um punhado de futuros, a volúpia repetida de todas as sextas feiras. Talvez amor. Talvez uma simples paixão inebriada de cores.

Eis que de repente. Eis que num repente, uma vara se fez serpente. Lá em cima, o sol e a lua pararam no firmamento. Caíram tábuas e o tempo fez-se, num ápice, estátua de sal. As mãos desligaram-se e os mil futuros deixaram de o poder ser. A cidade apagou a luz e mil inocentes morreram com uma única queixada de burro. Como se houvesse nexo onde não há, não pode haver, nenhum. Basaa, Ela, Zambri, Achab, Basaa, Ochosias e mais um punhado de Reis foram lestos e proclamaram o único futuro que os mortos pediam. O mundo fez-se, voltou a fazer-se, guerra.

Era fim de tarde, talvez já principio de Noite. Deus, o velho doente de que rezava Caeiro, tinha adormecido e esquecera Paris.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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2 respostas a Deus tinha adormecido e esquecera Paris

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    A um Deus com apneia vamos ter de o sacudir muitas vezes, companheiro.

  2. Pedro Norton diz:

    o boca a boca fica para si comandante

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