Fernando Pessoa

Já devo ter dito isto uma dúzia de vezes: este é o livro com as soluções gráficas e tipográficas mais originais que já fizemos na Guerra e Paz. Grande variedade de papéis, dos mais sofisticados, ao mais humilde papel de jornal, colagens que obrigaram a muito trabalho manual, miolo pintado a vermelho e à mão nas três fazes exteriores, e uma solução irreverente e divertida para a lombada. E, depois, no livro e na apresentação, as colaborações mais amigas, mais entusiásticas com que eu poderia sonhar. Para a abertura, escrevi este texto. Um texto que quis explicar o que não é preciso explicar, a desconcertante multiplicidade de Fernando Pessoa: Pessoa chegou a dormir com alguém? Houve alguma coisa que mexesse que chegasse a dormir com Fernando Pessoa? Ou, como dele disse outro poeta, mais desabrido, ele afinal “pinava só com a cabeça”?
E para quê explicar se, a seguir os textos de Pessoa ele mesmo e dos seus heterónimos estilhaçam qualquer explicação, no mais contraditório e paradoxal fogo de artifício da literatura do século XX português. Agora, façam o favor de ir a correr às livrarias comprar (ou julgam que um editor vive de quê?) a melhor prenda deste Natal: um livro, este livro.  
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Toda a Volúpia é Mental
Manuel S. Fonseca

Que corpo era o corpo de Fernando Pessoa? Corpo ortónimo ou corpo heterónimo? Era o desajeitado homem de óculos que um dia se atirou para cima de Ofélia a chupar-lhe beijos ou o homem ínvio e concupiscente que se regalava a mirar os “seios altos” parecidos a “montinhos que amanhecem” da amante do Aleister Crowley, que o veio visitar? Era o Álvaro de Campos que num verso de Mário Cesariny de Vasconcelos “gosta muito de levar no cu”? Ou, “homem com clitóris em vez de pénis”, era a fêmea subjugada da Ode Marítima, a que sente todas as coisas duma só vez, pela espinha acima? Ou, e nem sequer saindo da mesma Ode, seria o escravo ajoelhado aos pés dos senhores a gritar-lhes, “Humilhai-me e batei-me”, lembrando-se de que já na Ode Triunfal implorara “Espanquem-me a bordo dos navios”?

Este livro quer ser a antologia em que se deitam todos esses corpos. São corpos que Pessoa criou e dramatizou em verso e em prosa. Assina-os ele mesmo Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, Bernardo Soares, o Barão de Teive, Jean Seul, Henry More, António Mora e até, corcunda, tuberculosa e à janela, Maria José. Todos, o ortónimo, os heterónimos, semi-heterónimos, pseudónimos ou espírito mediúnico, perfazem o labiríntico corpo de Pessoa.

Minha Mulher, a Solidão” nem sequer é um livro. São dois. Se o dono da editora Olisipo, que Fernando Pessoa foi, viesse pedir explicações, dir-lhe-ia que são dois livros em conflito. Com textos e poemas completos – quando são fragmentários é porque assim os deixou o seu autor – há um livro dominante que espelha o diálogo maior que o autor manteve com um sublimado desejo do corpo feminino, com a trama que entretece a relação amorosa de um homem e de uma mulher. O outro livro, selvagem, em papel de jornal, rasga o livro canónico com seis cadernos panfletários, isolando e sublinhando excertos, soltando as velas à pederastia, a umas masoquistas espáduas em cruz, ao espectáculo sádico de se ser a cadela de todos os cães e isso não bastar, ou seja, a uma polimorfia amorosa que Fernando Pessoa poética e intelectualmente cultivou, e da qual, que se saiba, não há na sua vida vivida nenhum líquido traço.

Que objecto bizarro é este livro? Se o falido dono da tipografia Ibis, que Fernando Pessoa também foi, quisesse saber, dir-lhe-ia, muito ajudado pelo Ilídio Vasco, designer gráfico da Guerra & Paz, que a concepção tipográfica, com a diversidade de papéis usados, dois para o livro com os textos sobre a mulher e o amor, o papel de jornal nos cadernos intempestivos, a variada estética adoptada para a paginação, a capa com a lombada executada com uma heterodoxa costura à vista, a presença da secretíssima colagem de Ana Vidigal, o poema de amor de tu e eu, quotidiano, de Eugénia de Vasconcellos, querem ser os materiais diversamente equivalentes – os correlatos objectivos, ironizaria outro poeta! – à pluralíssima, e quase sempre paradoxal, sexualidade que transpira, se não do corpo, carne e osso, do heteronímico poeta, pelo menos da sua escrita. Não por acaso, este é um livro com muito trabalho manual tipográfico, tal qual, que se saiba, foi manual o que de concreto sexo a sexualidade mental de Fernando Pessoa experimentou.

Dizem-me que com estas coisas não se brinca. Lamento, mas ao contrário do que dizem uns sisudos “donos disto tudo” das artes & letras, brinca-se sim e é mesmo com coisas destas que vale a pena brincar. Brincar com a obra de Fernando Pessoa é vivê-la: sentarmo-nos, corrermos ou deitarmo-nos nela. É para isso que verdadeiramente serve a “Ode Marítima” ou “A Tabacaria”. Estudar-lhe a obra com esforço académico, classificá-la, investigá-la arqueologicamente são trabalhos monásticos necessários e essenciais e a quem o faz devemos, e sem reserva, ficar muito agradecidos – desmesurada, mas não reverencialmente agradecidos. A obra, depois, tem de estar na boca dos leitores, como, por escrito, Fernando Pessoa tanto pediu que na sua boca estivesse a boquinha de Ofélia. Vamos, então, aos beijos.

Este é o terceiro livro temático de Fernando Pessoa que a Guerra e Paz editores publica. Primeiro foi, em 2009, “O Livro de Viagem”. Em 2014, publicou-se “As Flores do Mal, absinto, ópio, tabaco e outros fumos”. Publica-se agora, Outubro de 2015, “Minha Mulher, a Solidão – Conselhos às casadas, malcasadas e algumas solteiras”.

Três livros, três temas: viagens, drogas, sexualidade. Não é que Fernando Pessoa não tenha viajado – por duas vezes viveu em Durban, passando até pelo Suez, e gozou as delícias dos Açores; não é que Fernando Pessoa não tenha tocado em drogas recreativas – no mínimo fumava e entreteve ameno comércio afecto-gustativo com o vinho e a aguardente; não é que Pessoa não tenha sentido no corpo a febre do sexo – há registo de, pelo menos por duas vezes, ter dado sôfregos, quiçá trôpegos e salivados beijos a Ofélia. Mas, nestas três antologias de Pessoa, o que se percebe é o quanto viagens, drogas, sexualidade, são aventuras e experiências apenas mentais. Pessoa é o viajante que viaja sem sair do cais ou, como das drogas escreveu, “Ópio tenho-o eu na alma.” Deixou-nos escrito em testamento: “Para que precisa de viajar com o corpo quem tão bem viaja com a alma” e não é diferente com o sexo. É mentalmente, ensina Pessoa, que as casadas devem trair os maridos – mais do que um homem em cima do corpo, Pessoa aconselha-lhes um homem em cima da alma.

Sendo sobre viagens, drogas ou sexo, estas três antologias de Fernando Pessoa são, afinal, sobre uma e a mesma coisa, sobre a superioridade dos processos mentais, sobre a superioridade das “formas”, das “ideias”, num platonismo de século XX que desvaloriza o corpo e os processos sensoriais. Toda a volúpia vem do cérebro, jura Pessoa. As orgias e os crimes de um Bórgia só são belíssimos se sonhados – ter havido um Bórgia real é banal e estúpido, porque “existir é sempre estúpido e banal”.

A justificação para publicar estes “livros temáticos” de Pessoa é dupla. Justificam-nos, primeiro, a significativa quantidade de textos que Pessoa dedicou a esses temas. A viagem, as drogas, a sexualidade são, cada um deles, tema recorrente e abundante, constituindo, quando reunidos, um corpo textual homogéneo. Em segundo lugar, o facto de lhes estar subjacente o princípio filosófico idealista, de que a verdadeira experiência é mental, confere-lhes unidade conceptual.

Minha Mulher, a Solidão” apresenta, em três capítulos, uma selecção dos principais textos de Fernando Pessoa em que a mulher e o amor são centrais. O casamento, a intriga amorosa e a desregulação sexual são, capítulo a capítulo, os alvos dos 46 textos, poema ou prosa, escolhidos. Deles decorre uma certa concepção do amor e a dúbia relação com o sexo de um poeta, do qual o mais indubitável que há biograficamente a dizer é que terá morrido virgem. E, não obstante, por mais arreigada que fosse, em Pessoa, a convicção da superioridade dos processos mentais, por mais que na sua mente “as ideias” de Platão esmagassem a “banal e estúpida” existência, essa sua “fortaleza filosófica” é bem mais frágil e fingida do que possa parecer. Foi a fingir ou a sentir que, no inverno de 1919, à hora de almoço, no escritório da firma Félix, Valladas & Freitas, pela primeira vez na vida, a boca de Pessoa, na boca de Ofélia, se colou à boca de uma mulher? Foi a fingir ou a sentir que, à luz outonal da Lisboa de 1930, Pessoa se excitou com o “corpo meio maduro” da novinha e linda Hanni Jaeger, cantando-lhe “a saliência do flanco / do seu relevo tapado”? Quando, nesse poema em louvor da austríaca, gritou em verso “Ó fome, quando é que eu como?” não é deveras que qualquer coisa no corpo de Pessoa grita?

Da sexualidade do homem Fernando Pessoa, fosse ela inocente, recalcada ou sórdida (ou o florido bouquet de tudo isto), quase nada sabemos. Foi casto e estéril. Não sabemos se foi só um heterossexual casto e estéril, ou se a sua estéril castidade se alargou ao alegre fogo de artifício de marinheira homossexualidade e sado-masoquismo que explode no que, nesta antologia, chamámos “um segundo livro concupiscente de corpo nu”. Editor, na sua Olisipo, de Raul Leal e António Botto, público advogado estético do escândalo que a poesia “oficialmente pederasta” de Botto desencadeou, não se conhecem a Pessoa, na sua vida vivida, incursões ou relações sexuais com homens, fossem eles poetas, moços de fretes ou marujos de Cais do Sodré.

Não há, portanto, notícia de que, usando os termos pessoanos, o cérebro lhe tenha algum dia descido até ao fundo da espinha. Ou seja, por mais que deveras os sentisse, são fingidos os prodigiosos relâmpagos e trovões que rasgam o papel de jornal do segundo livro desta antologia. São poeticamente fingidos porque, como escreveu Cesariny, Fernando Pessoa pinava só com a cabeça: “Pinar só co’ a cabeça / É protérrima noção / Ca Literatura começa / Ter em muita aceitação.

Rebelde discípulo de um platonismo elitista, misógino e misantropo, a Fernando Pessoa, que a si mesmo só se conhecia como sinfonia, bastou amar-se a si próprio, amando em si a multidão que ele sozinho conseguia literariamente ser. Foi a mulher de si mesmo. E, sempre que quis, dormiu com os outros homens que embalava dentro de si, porque, escreveu ele, “posso ser tudo, ninguém tem nada com isso.

Terá a virgindade de Pessoa sido imprescindível à sua plena consagração literária? Se não há dúvida de que a euforia sexual que esta antologia atesta é puramente literária, também se percebe que a cabeça de Pessoa teria gostado que mais alguma coisa nele “pinasse”. As cartas a Ofélia mostram como os passos físicos – os “ai, minha bonequinha, quem te tivesse aqui…”, os “Meu Bebé para sentar ao colo! Meu Bebé para dar dentadas! Meu Bebé para… (e depois o Bebé é mau e bate-me…)” – esses patetas passos físicos do amor eram desejados por Pessoa. A cabeça, afinal, querer queria, mas o corpo é que não podia, não lhe apetecia ou, peregrina hipótese, não precisaria.

E eu gostava que a última palavra desta apresentação fosse Fernando Pessoa a rir-se. Ele ria-se e eu gosto do poeta que se ri, ainda mais quando se vê que é Fernando Pessoa ele-mesmo quem, no plural Pessoa, mais se ri. Pessoa gostava de pregar partidas – ajudou a suicidar Aleister Crowley, numa farsa que chegou aos jornais e à polícia. Pessoa gostava, dizem, de fazer rir os sobrinhos quando eles eram miúdos. Na rua, fingia muitas vezes de bêbado ou fazia de íbis, a ave que por ele assinou cartas para Ofélia, equilibrado só numa perna, a mão direita esticada a frente, a esquerda para trás. E se, em vez do platonismo anacrónico, dessa severa dicotomia entre a superioridade do intelecto e a mediocridade das sensações físicas, uma parte da leitura do que Pessoa escreveu pudesse também ser lida e emocionalmente sentida como um jogo? Quando, na “Passagem das Horas”, lemos os versos “Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te, / Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!”, que razão temos para sobre este “conto de fadas” despejar suspeitas de verosimilhança ou recalcamento com rabo de fora? E se, na ponta desse verso estiver só Fernando Pessoa a rir-se?

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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Uma resposta a Fernando Pessoa

  1. Luis Eme diz:

    Sim, o Fernando pode, deve e merece ser tudo.

    E devia ter um bonito sorriso, ainda que tímido e cheio de ironias.

    E talvez oferecesse mesmo umas gargalhadas aos seus amigos íntimos, no fim de mais um verso…

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