Jean Seberg. Deitada. Obstinadamente imóvel

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Bebé D’Arc

Não sei quanto tempo (uma noite e um dia?) ficou deitada, obstinadamente imóvel, no banco traseiro de uma Renault 4. Seria uma Renault 4?
Jean Seberg é, entre todas as actrizes, o meu principezinho. Veio dos Estados Unidos à França, como o Petit Prince de Antoine de Saint Exupéry veio do asteróide B 612, planeta pequenino como a mais pequenina das casas, até a um solitário deserto do planeta Terra. Queria cativar, queria ser cativada. Falou como uma flor, talvez alguém lhe tenha falado como uma raposa. Um dia deixou que, como um colar dourado, uma serpente se lhe enrolasse ao tornozelo (e eram tão bonitas as pernas acima desse tornozelo) e se fizesse silêncio. Não gritou. Caiu como cai qualquer pessoa que tomba sobre uma grande duna toda feita da areia amarela da tristeza. Escrevi-lhe, em tempos, esta carta.

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Que vontade de te fazer

Estás esten­dida no banco de trás da Renault branca. A ideia do corpo esten­dido, as perfeitas per­nas, a nuca tão lisa, é de um ero­tismo ingénuo, de provín­cia, certo para a rapariga de Mar­shall­town, Iowa que tu foste e nunca deix­aste de ser, nem mesmo agora que moravas em Paris. Mas já estás aí há dias, pele deslavada, corpo em decom­posição. Sabes bem que mor­reste – morreste-te tu mesma – o que os dois oca­sion­ais gen­darmes desco­brem nesse 8 de Setem­bro de  1979, há-de ter feito há dois meses, 36 anos. Tu tens, nesse dia da tua morte, 41 anos. Os anos que hás de ter sempre. A 13 de Novem­bro de 1938 não tin­has nem um. Só o nome: Jean Dorothy Seberg. Bebé americana.

Como é que chegaste a ser tão francesa? Foi só por teres sido Santa Joana às mãos grossas e implacáveis do austríaco Pre­minger? Foi ele que procurou e te escol­heu, entre vir­gens, con­cu­bi­nas, cheer­lead­ers. Filmou-te como quem sacrifica. Rapou-te o cabelo e queimou-te a preto e branco.

Depois, a cores, fez de ti Cécile. Vestiu-te blusas leves, calções que oscilam entre o curto e o muito curto, fatos de banho ver­mel­hos, amare­los e azuis que te fazem fina a cin­tura, cabelo dourado quase rapado, a nuca, sem­pre a nuca tão bonita, e o vestido preto preso ao pescoço por uma gola del­i­cada, pequen­ina. Sabes bem que bas­tava esse filme, que te bastava a inces­tu­osa insin­u­ação de Bon­jour Tristesse, o filme mais a cores que existe, para que fos­ses – sejas – muito amada.

Mas ainda tens, querida, o A Bout de Souf­fle com o Godard. J’ai envie de faire avec toi beau­coup de petites choses qui me plai­saient, disse-te ele, diria eu. E tu foste directa, natural – não te pare­cia cus­tar nada –, amoral. No fim, dégueu­lasse e lírica como, mas menos cruel do que Bon­jour.

Tristesse tanta, a maior tris­teza, de choro duro e histérico, o teu mel­hor filme amer­i­cano, sem des­cul­pas de história francesa ou de Verão de Riv­iera, foi Lilith. Tinha de ser um tipo de Nova Iorque, Robert Rossen, judeu, comu­nista, com uma sen­si­bil­i­dade de arco de violino escon­dido num corpo de armário. Filmou-te tão bem. De fazer raiva. Esquizofrénica e linda. Nin­fo­maníaca e linda. Quer­e­mos ficar pre­sos no tumulto per­verso dos teus olhos, meter a boca na tua boca, mesmo sabendo que é de out­ras, mais bocas.

O que é que te acon­te­ceu depois? Já me con­taste os casa­men­tos infe­lizes, as visitas à infecta solidão, à vulcânica tristeza; já me contaste a tua pere­g­rina sim­pa­tia pelos Black Pan­ther, a morte da tua filha Nina, e o inelutável ciclo depres­sivo de 9 anos. Esqueceste-te de con­tar o resto, como é que, depois de teres nascido a 13 de Novembro no Iowa, 41 anos pas­sa­dos, em Paris, te sep­a­ras de céu e terra e te deixaste deslumbrar pela noite escura de breu, a serpente no tornozelo, sem sequer me deixares dizer que não quero, e ainda menos em Paris, que ninguém morra aos 41 anos de idade.

BonjourTristesse

O invisível tornozelo

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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2 respostas a Jean Seberg. Deitada. Obstinadamente imóvel

  1. EV diz:

    Ainda bem que trasladou a correspondência amorosa, é das coisas mais bonitas que publicou no Expresso – mas deu-lhe roupas novas, a linda introdução é outra e também mexeu um bocadinho aqui e ali, na Seberg, portanto…

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