Just Listen

 

no principio era a imagem...e o corpo

no principio era a imagem…e o corpo

Para quem viveu tanto da imagem surpreende a voz que agora toma conta do ecrã.

“Listen to me Brando” é mesmo isso, é ouvirmos Brando,  o Marlon,  que foi também actor.

Realizado por Stevan Riley, o documentário nasce das centenas de horas que Brando gravou em cassete, uma espécie de diário áudio. Marlon Brando, a sua voz, declamando textos e comentários por si escritos, e na tela Marlon Brando actor, mas sobretudo Homem. Actor e Homem que parecem, à medida que a voz nos conquista, cada vez mais distintos.

“let your mind drift, back…way back…”

É a voz do tempo no olhar para trás, mas também a voz cansada sob o  peso da certeza de que nada pode mudar o que já passou. Uma voz que é um olhar, um olhar no espelho que já não nos reflecte, irreconhecível a imagem que vemos reflectida.

“Listen to me Marlon” é a viagem para o interior quando a imagem desaparece na poeira do mundo que nos soterra.

Ou o peso da fama que nega uma existência vulgar,  a tristeza profunda quando a tragédia chega de dentro, de tão perto, de nós próprios.

E tudo passa a ser voz, mesmo quando a imagem e o corpo, (e que corpo aquele!), foram em tempos o centro do mundo.

Escondido do mundo onde a ficção se tornou realidade, na escuridão das salas cobertas de penumbra, na impossibilidade do relacionamento com os outros.

A voz da força de quem dormiu ao relento na cidade desconhecida, da inteligência cruel de quem entende que a vida já não existe sem a ficção, tornando-se o actor em coisa real.

Os grandes continuam a sê-lo mesmo quando caem, porque a queda em si faz parte do homem.

Porque no fundo, diz-nos a voz,  “acting is surviving “. Nada mais.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência.

Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra.

Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data.

A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach.

De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro.
A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

Uma resposta a Just Listen

  1. EV diz:

    Que bem trazido, Bernardo, nem sequer conhecia… quero ver!

Os comentários estão fechados.