O beijo

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O Manuel falou em Klimt (ainda que a propósito de Schiele, o seu mais dilecto discípulo) e eu não resisto a vir para aqui distribuir beijos. Tudo isto porque é dele, Klimt, o maior beijo da História. O maior e o mais intrigante. Seis anos decorreram desde o texto que aqui recupero e, por causa de Klimt, desconfio que continuo sem perceber alguma coisa de beijos.

Desenganem-se todos os que pensam que a femme fatale foi uma criação da década de 30 de escritores hard-boiled como Raymond Chandler, Dashiel Hammett e James M. Cain, que depois o film noir, e toda a sua imagética expressionista, tornaram facilmente identificável aos olhos dos machos mais incautos. A verdade é que, uns bons trinta anos antes, já o sofisticado Gustav Klimt, mestre da Arte Nova e fundador da Secessão Vienense, definia, nas suas pinturas plenas de sensualidade, os traços fundamentais da imagem da femme fatale que perdurou até aos nossos dias. E, como muitas vezes acontece, a criação – inspirada no modelo das cortesãs fin de siècle que constituíam o principal sorvedouro de muitos endinheirados daqueles tempos – tornou-se maior do que o criador, ganhou vida própria para passar a alimentar o imaginário masculino dos mistérios da sedução, quantas vezes feito de atracção e repulsa ao mesmo tempo.

Segundo se diz, Klimt não chegou a ser dominado pela sua criatura mas contribuiu para a vitimização dos que se lhe seguiram, como o pobre Kokoschka à mercê de Alma Mahler (segundo consta, terá sido Klimt a roubar-lhe o primeiro beijo). Para o promíscuo e insaciável Klimt, a femme fatale só o era para os outros, nunca para ele, que as submetia. O beijo era, para ele, o sinal do domínio sobre a amante submissa, nunca o instrumento do feitiço que as mulheres lançavam sobre os homens.

Sei que já muito se escreveu sobre um dos mais celebrados beijos de sempre, que é o seu O Beijo (óleo sobre tela, 180 cm x 180 cm), pintado em 1907/08, e que existem mesmo as interpretações mais díspares sobre a obra. O foco de discórdia, segundo parece, está na atitude da mulher, que uns dizem receptiva e disponível, outros relutante e resistente ao beijo. E está, também, nas intenções do homem (é de crer que o próprio Klimt), que alguns defendem ser de cariz puramente sexual, outros de natureza romântica ou terna. E o próprio precipício à beira do qual os amantes se entrelaçam pode conduzir a várias leituras: quererá ele significar que o homem protector salvou a mulher do vazio de uma existência sem (o seu) amor? Ou estará ali o precipício para representar o abismo a que a paixão conduz? Ou, indo ainda mais longe, quererá o precipício dizer que ela – que afinal de contas é mesmo uma femme fatale que subjuga Klimt como qualquer outro – irá, inevitavelmente, com fingimentos de mulher só aparentemente submissa, arrastá-lo a ele para o abismo?

Bom, e o que dirá um leigo como eu dirá de tanta diversidade e indefinição na interpretação de um simples beijo? Muito ingenuamente, sentir-me-ei tentado a retirar (ou melhor, a reforçar) a conclusão de que os mistérios da sedução feminina são insondáveis. E ainda bem que assim é. Para bem da sedução.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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4 respostas a O beijo

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Este é, Diogo, um beijo muito bem dado…

  2. Diogo Leote diz:

    A culpa é tua, Manuel. Foste tu e o teu Schiele que convidaram ao beijo.

  3. Blackye diz:

    Os mistérios da sedução são o que a tornam de mais prazerosa…

    • Diogo Leote diz:

      Direi mesmo mais: sem mistério, não chega sequer a haver sedução. São uma e a mesma coisa.

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