O Principezinho

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Não vos quero mentir, fui eu. Acabadíssimo de chegar às livrarias, este O Principezinho de capa preta fui eu que o publiquei e fui também eu, mas não sozinho, que o traduzi, e já lá vou.

Sou agora editor dele. Mas quando é que pela primeira vez o li? Fui leitor, bem me lembro, pelo 15 anos, e sei que foi numa manhã de ouro. Talvez fosse Maio, estava o Verão tropical a chegar ao fim, naqueles dois meses que nos trópicos o Verão demora a chegar ao fim. Foi um livro tão rápido, pensei eu, nesse Verão tão lento. Li-o de dia, lia à noite A Náusea de Jean-Paul Sartre. Agora, 45 anos depois, nas breves quatro estações de Portugal, vejo que é muito mais rápida A Náusea, tão mais lento O Principezinho. Há nele silêncio, clara areia nua, o umbigo do deserto. Há, não há – diz-me tu? -, Rui Santana Brito, meu antiquíssimo amigo, que o traduziste agora para mim e me deixaste, por vaidade minha, capricho meu, ser contigo tradutor e pôr, a cada vinte palavras tuas, uma palavra minha também.

(Conhecemo-nos há quê? 35 anos? Foi o João Bénard que nos apresentou, nessa cinemateca onde, parece que não, mas passavam filmes de putas e soldados, e nós saíamos para almoço ao palácio foz, a fornalha da cozinha colada aos cofres com os altamente inflamáveis filmes de nitrato. E nós a comer a sopa tresmalhada do funcionalismo público. E mais nos conhecemos de levar a Antónia, o Zé e a Natália a Roma e a Paris, todos outra vez e o adorável Cintra a Madrid, ou de irmos em casais a Rabat e a Marraquexe. Foi, por isso, por 35 anos de sermos tão diferentes e tão próximos, que, confesso, te invadi o que devia ser só a tua tradução do livro do menino que veio aos tombos do céu. Para ficarmos aos tombos com os nomes juntos num livro.)

Não sei se te disse, Rui, mas queria que a nossa tradução fosse morar na fímbria de duas histórias do santo Exupéry. Vinha ele de Saigão para Paris e o avião que pilotava refilou no ar, engasgou-se. Sem mais remédio, Saint-Exupéry salvou-se, aterrando de emergência no deserto líbio. Sozinho, no escasso deserto, salvou-o uma caravana de nómadas que viram cair aquele estranho pássaro habitado e da desolada carcaça do bicho metálico sair um homem, um ser alado, talvez um deus – ajoelharam-se os camelos. Quase vinte anos antes, foi esta a situação que inspirou o livro. Um deus humano que cai do céu. A manhã de ouro que ilumina o deserto.

Mas há outra história. Não sei se, como diz outro poeta, era já noite entre a tarde e a noite. Saint-Exupéry viajava na União Soviética. A carruagem cheia, embarcada de cheiros, uma fatia de pão duro, os ombros solidários do proletariado de Estaline. À frente dele um casal operário e entre os dois, pai e mãe, viu que dormia, escondido, um miudinho. A criança vira-se e Saint-Exupéry vê-lhe o rosto, luminoso, louro, rosto de príncipe nascido em manjedoura. Era talvez já noite entre a tarde e noite e, da carruagem, o rosto límpido, alvo, daquele miúdo, fez outra manhã de ouro.

E eu acredito, Rui, que na tradução que tanto gozo tive em fazer contigo, há um bocadinho dessa manhã de ouro, que foi a obsessão de Antoine de Saint-Exupéry, ele que tantas vezes via as manhãs de e no meio das nuvens, manhãs de cima para baixo, à velocidade da luz, um avião a correr na ponta de um raio de sol.

É este  O Principezinho (o da capa preta e cantos arredondados que o Ilídio Vasco tão bem inventou) a que, agora, ficamos amarrados. Não é um livro de meninos, é um livro de adultos. O livro que nos ensina ver com o coração, muito mais do que a ver com os olhos, o livro que nos ensina a cativar, que nos ensina o valor do tempo, do tempo dedicado, e que nos ensina a, regressados a esse ponto da Terra em que pela primeira vez nela caímos, não ter medo de escuramente subir pelo misterioso caminho por onde luminosamente descemos. Uma e outra coisa são a mesma coisa, a mesma manhã de ouro.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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10 respostas a O Principezinho

  1. Luisa diz:

    Se vemos com o coração todos somos Principezinho. Esta é uma história de todos os lugares e sem tempo.

  2. EV diz:

    Vou comprá-lo!

  3. Fernando Vale diz:

    Caro Manuel S. Fonseca, que encanto esta sua apresentação do “Petit Prince”. Curiosamente há poucos dias vi uma entrevista do Mathias Énard, Goncourt 2015, em que ele referia o livro mais importante da vida dele, que mais o influenciou, que fez dele um escritor. Un Goncourt, pas peu de chose…Pus-me a pergunta a mim mesmo e pensei de imediato no “Petit Prince”. Razão ? Emoção ? Sei que nunca mais deixou de me acompanhar, com alegria e serenidade.

    Muito sucesso !

  4. Rui Santana Brito diz:

    Obrigado, Manel, pelo belíssimo texto. Um abraço

  5. Joaquim Vaacondeus diz:

    Todos nós temos a recordação da primeira vez que lemos este livro. Mas agora outra recordação mais intensa vai ficar; a desta versão de ouro!
    Obrigado Manuel por teres a coragem de pegar tão bem numa obra que é um pilar da nossa formação como seres humanos.
    Joaquim

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