Orpheu: Ora PIM, ora PUM

Orpheu

O que é ou foi “Orpheu”? É preciso esclarecer o pessoal que frequenta as cervejarias, é preciso esclarecer o português que anda indeciso entre o Uber e o táxi canónico. “Orpheu” era uma revista de poesia. Era uma revista e lá dentro, nas páginas (por de páginas e de papel se fazer uma revista, que é como um livro, mas mais molinho), havia textos, coisas escritas. É bom dizer isto porque muita incauta gente, apanhada distraída, pode pensar que “Orpheu” era uma ONG, uma coisa parecida com a “Abraço”, ou um partido político desasado. Mas não, “Orpheu” não é o CDS ou o PCP, que seriam, talvez, os partidos políticos que os portugueses conhecem mais próximos de um ideal poético. E, no caso de “Orpheu” ser poesia, então o Bloco de Esquerda – PUM – é a coisa mais anti-poética que pode haver: PIM! PAM! PUM!

Salazar e Cunhal foram, no século XX, os políticos mais próximos de um ideal poético. Porque, à poesia, quando lhe dá para a puta de um ideal, logo descamba para o totalitário, para palácios de inverno e noites de cristal. Mário Soares e Francisco Sá Carneiro foram os únicos políticos que tivemos que podiam ser esparramados na capa de um romance. O romance são 200 ou 800, 400 ou mil páginas de gente cheia de dúvidas, gente persistente e estraçalhada de pecadilhos, mas com uma humanidade que enternece, homens e mulheres fiéis até no ledo, doce e amoroso engano. Mas isto não interessa nada, porque “Orpheu” não é um romance, por muito que em prosa sejam os poemas de “Orpheu”.

É preciso que as pessoas tenham ideia de que a poesia são palavras em fogo e que palavras em fogo não são, necessariamente, a coisa mais próxima da verdade. No romance, as palavras são mais brandas e macias, e pode muito bem um brutal substantivo deixar-se ficar de beicinho caído por um subtil adjectivo. Para já não falar de advérbios ou de um pretérito mais que perfeito. E já me perdi, e já reconheço o engano, como o ouriço-cacheiro, que dizia “Qualquer um se pode enganar”, descendo, desalentado, da escova do cabelo. Sim, quando não se fode é melhor sair de cima.

Gostava também de dizer que “Orpheu” é uma coisa da língua para fora. A língua serve para tudo. Para andar por aí – ai, ai, a fazer queixas, ui, ui, a lamber botas! Falada, é portuguesa, a língua de milhões de uma malta de carne e osso que na sua esmagadora maioria nem é portuguesa. “Orpheu” para ser portuguesa foi também brasileira, porque nada é português se não for ao mesmo tempo outra coisa.

“Orpheu” nasceu em Portugal ainda havia um czar na Rússia. Nessa altura, bem esticada e indecente, pusessem os poetas de fora uma língua portuguesa, uma língua russa ou francesa, queriam e não queriam czares. Os poetas nunca sabem o que querem e isso, às vezes, pode ser mesmo muito chato. O poeta sonha com um czar onde o não haja e odeia o czar que houver. Viva o Czar, Puta que Pariu o Czar. O poeta é tão contraditório que tropeça nos próprios sapatos e só não tropeça nos atacadores porque o poeta de “Orpheu” não podia usar atacadores para não se suicidar.

O poeta de “Orpheu” suicidou-se, aristocrático, em Paris. Enterrou-se no seu esoterismo e exilou-se nos salões sem janelas de uma Beleza visceral, mental e palpitante, vestida a caprichos de cetim, que trazia, na cabeça, um roxo capacete de ferro.

“Orpheu” tinha sexo, o de Nossa Senhora de Paris, cheirinho a maresia. Cai-nos por ela, agora, um braço e, do lado da janela, velam pela Senhora três donzelas. Mas isto não é para meninos, nem meninas. Explodem tumultos nas ruas, assaltam-se as padarias de 1915 por causa do aumento do preço do pão e Pessoa & Campos, Mário Sá-Carneiro e Almada põem “Orpheu” de saias arregaçadas, a lavar as pernas da poeira das estradas. Como eu vos amo a todos, a todos, a todos, ou não fosse “Orpheu” a nossa Ode Triunfal.

“Orpheu” acabou, “Orpheu” continua, “Orpheu” está adiado sine dia. E eu sou dessa maravilhosa gente humana que vive com os cães. E bem vos digo: a poesia não faz sentido nenhum e é isso que faz a inenarrável, pasmosa beleza de “Orpheu”. O resto, as ceroulas de malha dos partidos, concubinos e ciganões, as munições de manguitos dos telejornais… Ora PIM, ora PUM.

Orpheu_

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

4 respostas a Orpheu: Ora PIM, ora PUM

  1. adelia nunes da fonseca riès diz:

    Ler este texto foi o melhor que me soube.

  2. EV diz:

    Quando não se vê a carpintaria de um texto, o Deus dos escritores dorme descansado e o leitor está feliz – no caso, a leitora. Muito bom!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Sabe que hoje estive no quarto do Pessoa? Sim, do Fernandinho. Já fui várias vezes à casa Pessoa, mas como não sou muito dado a visitas guiadas, nunca lá tinha posto os pés. Lá estava o raio da cómoda e é fácil de perceber que ele tenha escrito em pé. Olhando bem, na verdade nem é um quarto, era mesmo é uma carpintaria.

Os comentários estão fechados.