Para onde lhes penderá o coração?

To kill a mockingbird

To kill a mockingbird

Perguntam e perguntam bem. Que raio tem a Harper Lee a ver com o Steven Spielberg e com os irmãos Coen? Porque é que Bridge of spies me fez lembrar To kill a Mockingbird? O que é que o Alabama dos anos 30 tem em comum com a Berlim dilacerada dos anos 50? Vamos então por partes.

Atticus Finch é um advogado como verdadeiramente não há nenhum.  Ama a verdade como poucos, acredita na nobreza da sua profissão e dispõe-se a tudo para as defender. Mesmo quando lhe cai no colo um caso cuja defesa, sabe-o desde o início, arruinará a sua reputação e a da sua família na preconceituosa small town de Maycomb. A nada cede Atticus Finch. A nada? E quando, quase à saída do labirinto onde se deixou perder, tem de decidir entre fechar os olhos aos rigores formais da Lei para salvar o seu próprio filho das malhas da (in)justiça ou deixar que esta funcione, cega, como jurou para sempre fazê-lo? Para onde penderá o seu coração?

James Donovan é um advogado como verdadeiramente não há nenhum. Ama a verdade como poucos, acredita na nobreza da sua profissão e dispõe-se a tudo para as defender. Mesmo quando lhe cai no colo um caso cuja defesa, sabe-o desde o início, arruinará a sua reputação e a da sua família na preconceituosa América dos anos 50. A nada cede James Donovan. A nada? E quando, quase à saída do labirinto onde se deixou perder, tem de decidir entre cumprir a missão heróica que a pátria lhe reclama ou colocá-la em risco para tentar salvar uma vida absolutamente irrelevante para os superiores interesses do seu país? Para onde penderá o seu coração?

Bridge of spies

Bridge of spies

Cada uma à sua maneira, eis, separadas por 50 anos, duas belíssimas reflexões sobre o dilema dilacerante que é o de sentir, nas profundezas da alma, a pulsão de duas lealdades em irresolúvel conflito.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.

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6 respostas a Para onde lhes penderá o coração?

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Gostei muito do Spielberg, tome lá nota.

  2. Luísa Tavares de Mello diz:

    Obrigada.Gosto do que escreveu. Sou advogada e às vezes misturo as qualidades. Na vida pessoal, o coração – quando o usava – pendia-me para a asneira.

    Agora, o coração – que não uso na vida privada – pender-me-ia para salvar o filho e a pátria. Coisas de velha.

    • Pedro Norton diz:

      Olá Luísa. Obrigado antes de mais. Sabe uma coisa? A pátria não sei. Já vi muito disparate feito em nome dela. Mas salvar um filho nunca será nem asneira nem coisa de velho. Digo eu que também já fui francamente mais novo.

  3. nanovp diz:

    Bem parece que tenho de ir ver o Spielberg….

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