Pentimento: “A Pianista” e a Reprodução da Violência

"La Pianiste" (2001), de Michael Haneke

“La Pianiste” (2001), de Michael Haneke

Andava há anos para o ver mas, por alguma razão, nunca calhou. Arrumei a questão como sempre faço quando estou desesperado: comprei-o em Espanha (dvdgo-com, aconselho sonoramente).

Na filmografia pré”Laço Branco”, “A Pianista” é o mais célebre capítulo do austríaco Michael Haneke (tinha visto todos os seus filmes, mesmo os obscuros como “O Sétimo Continente” e “Benny’s Video”, excepto este) na abordagem de um tema central à melhor compreensão da natureza humana: o papel da animalidade no tecido biológico, mental e social da espécie.

O ponto de vista de Haneke é claro, e a forma como o repete, diversificando-se, em cada filme é tremendamente eficaz: a fronteira entre civilização e barbárie depende, apenas e só, das circunstâncias.

Essas circunstâncias não são excepcionais. Pelo contrário. Nas suas diversas modulações, surgem com frequência no quotidiano.
Em “A Pianista”, a linha ténue rompe-se quando uma professora de piano vienense (interpretada por Isabelle Huppert na habitual palidez assombratória), de quarenta anos atormentados por uma mãe possessiva, hiper-controladora, no limite da intromissão sexual (a repelente e extraordinária Annie Girardot), conhece um wunderkind musical (Benoit Magimel com melenas de nazi), apaixonando-se. Na ponte pênsil de desequilíbrio entre “nature” e “nurture”, a pianista é uma sadomasoquista nos intervalos das aulas, capaz de cheirar Kleenexes usados em peep-shows ou a auto-mutilar-se nos lábios vaginais com uma lâmina de barbear.
Parece um filme de terror, e é. Mas é-o pelos sinais interiores de “normalidade”, não pelos efeitos exteriores de “anormalidade”. À sua maneira, Huppert quer ser amada por Magimel, mas este não compreende uma mulher que vomita quando tenta fazer amor com ele no vestiário masculino de um ringue de gelo. A resposta do amante à solicitação de violência é infligir mais sofrimento do que até o sadomasoquismo da pianista pode suportar.
Michael Haneke é desde há muito um dos raros cineastas do futuro (não os chamo de “modernos” porque estaria a acusá-los de antiguidade, e não os chamo de “pós-modernos” porque frivolizaria a sua importância), capaz de pensar o que está por trás da cortina do nosso complexo descontentamento.

Cronenberg ocupa-se da relação entre mente, corpo e tecnologia. David Lynch atenta à luta – muitas vezes sangrenta – entre consciente e inconsciente. Chris Marker dedica-se aos eternos reequilíbrios entre tempo e memória. Claire Denis desvenda aa batalha ritualista entre o mundo físico e a carapaça cultural. Haneke tem passado os últimos 20 anos a construir um monumento pessimista, por vezes inclemente, à ilusão do tecido sócio-cultural como traje protector dos mais ferozes instintos, não apenas de sobrevivência, mas de destruição.

O homem é o mais violento bicho de todos porque é o mais eficaz a dissimular essa violência, diz Haneke, numa gramática que não exclui, por vezes, uma poesia que corre riscos sérios de se tornar niilista (o que nos levaria a outro texto).
Mas há uma questão formal que Haneke sempre compreendeu, do vício apocalíptico de “O Tempo do Lobo” à psicopatia de “Funny Games”, ou do desespero comunicacional de “Code Inconnu” à obra-prima “Caché”, onde o voyeurismo ganha a urgência de todas as cicatrizes infantis: a melhor forma de reproduzir a realidade da violência é evitar o jogo rítmico e simulatório da montagem.

Assim como o grande – e subestimado – John Boorman percebeu que a melhor forma de traçar a distância emocional entre duas personagens é separá-las fisicamente no mesmo plano (daí Boorman, de “Deliverance” a “A Floresta Esmeralda”, tanto recorrer ao Cinemascope), Haneke compreendeu que a forma mais justa de retratar a violência é não cortar o plano onde ela ocorre. Nesse sentido, Haneke duplica uma verdade ontológica que o cinema tantas vezes recusa mas a pintura sublima: a única montagem permitida aos espectadores de “David com a cabeça de Golias” de Caravaggio é sair da Galeria Borghese e mudar de sala (ou de cena…).

É também o que faz, em certa medida, o canadiano Cronenberg em “Uma História de Violência” e “Promessas Perigosas”. Olhe-se para a cena da sauna neste último: a força e a honestidade da sequência decorrem de uma utilização cuidadosamente austera da montagem. Cronenberg leva os planos-chave ao limite, devolvendo-nos uma percepção da violência próxima do tempo real, onde as pessoas realmente sangram, e onde esse sangue poderá culminar em mortes dolorosas ,e sobretudo, lentas.
Claro que Hawks já o tinha percebido. Mas há quem o faça, paradoxalmente, para criar efeito: Tarantino, por exemplo, aplica repetidamente a dilatação temporal como um “gimmick” (vejam-se as famosas cenas do corte da orelha de “Cães Danados” e da violação anal em “Pulp Fiction”). Mas Tarantino é uma criança malcriada. As crianças fazem coisas brutalmente belas, mas quase sempre irreflectidas.

Haneke não. Ele assume as consequências morais de não de recorrer à montagem. De não desviar o olhar. De aguentar o plano. É uma opção terrível. E, nas mãos erradas, aflitiva. Revela pelo menos uma vantagem: não dessensibilizando a violência aos olhos do espectador, o director recusa transformar a agressividade e o sofrimento (veja-se “Armageddon” ou as milhares de fita com invencíveis vigilantes) no último jogo de plataformas shoot them up para a “Playstation Portable”.

É esta a grande importância contemporânea de realizadores como Haneke. Há quem lhe chame “perigoso”.  Pois é precisamente aquilo que ele não é.

(texto publicado originalmente em Setembro de 2008 no blogue “Geração de 60”, onde navegavam temíveis corsários como Manuel L’Ollonais Fonseca, Pedro Blackbeard Norton ou Vasco Francis Drake Grilo)

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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6 respostas a Pentimento: “A Pianista” e a Reprodução da Violência

  1. pedronorton diz:

    Já tinha gostado e voltei a gostar!

  2. pedronorton diz:

    PS: a barba é que já deixou de ser black…

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Já devo a este belo texto uns bons e imperdoáveis anos sem ver “a obra”. Mas, caramba, não é razão para me pores, Peter, de pilhagem e perna de pau.

  4. Tu és o pirata que veleja com doçura nos bons sentimentos, ó doutor.

  5. O grisalho dá-te perfil de estadista, Pedro. Estadista dos sagrados maus costumes.

  6. nanovp diz:

    Realizadores de Futuro Pedro, não muito risonho pelos vistos…”O tempo do Lobo” já deixou de ser premonitório, é já realidade…

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