Rosa

Os blogs não servem para textos longos. Felizmente este é um blog atípico. Este conto curto foi publicado no livro Do Branco ao Negro – por sinal, muito bem ilustrado pela nossa Rita Vasconcellos. Já disse que tenho o vício da short story? Então, deixem-me repetir…

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ROSA
No Bairro Alto, em Lisboa, a Rua da Rosa vem desde lá de baixo, ao fundo, do Largo do Calhariz. Nasce de um arco de vida como uma criança das pernas afastadas da mãe e segue entre dois passeios aquela única via de todo o caule: espinhos à esquerda e à direita, sempre a subir, com paragem sacra nas travessas: a das Mercês, a dos Fiéis de Deus, dos Inglesinhos, a da Água da Flor, de São Pedro, a do Conde de Soure, até desaguar no seu mar alto de pétalas desabrochadas onde todo o sentido se abre, onde por fim se acaba, na Rua Dom Pedro V.

O número 163 fica à esquerda de quem vem fazendo o caminho para cima. É uma casinha amarela, de três portas, três pisos, entalada entre outras duas paredes indiscretas, uma forrada de azulejos, outra de indefinida cor de areia. Os números 165 e 167 dessa mesma casa amarela têm por cima janelas com varandins e guardas de ferro. O 163 não. Tem um óculo por onde respira a luz estreita e redonda. E lá no alto, desgarradas por baixo de uma linha ondeada de vermelhas telhas mansas, uma sobre a outra, duas janelas pequenas em molduras de cantaria não disfarçam a cegueira da parede voltada à rua.

É uma língua de casa. Estreita. A porta de entrada, baixa e pintada de verde, exige logo no degrau vénia de criado, inclinação pela cintura: dobra as costas, magano, para passares dentro, deixas fora a cagança.

Este era o problema de Rosa Maria. Congénito, porra. Branca, olho azul de estalo, pequenina, rápida no gatilho em qualquer resposta, disparava cinco palavrões em cada frase. Uma miúda de dar gosto. Não tinha a quem sair de aparência entre pai e mãe morenos, irmãos, a mais nova e o pequenino, morenos também. Destoava, cacete.

A rua de quando nasceu, não é a rua de agora, porém estava no início desta floração: começavam os intelectuais a apossar-se do chão calcetado. E uma parada de gays, que em linguagem de vizinhança era maricagem, colorida e artística, saía da noite para o dia. Instalavam-se e era como se nada fosse, como se sempre tivesse sido: entravam na africana a comprar fruta e cigarros e bom dia dona Almerinda. Olha-me esta prenda, pensava ela, e depois não pensava nada que não pensasse sempre, seguia os desamores, o entra e sai e com quem.

A coisa desgraçou-se quando para a porta em frente ao 163 se mudou um psiquiatra. Veio depois de uma fartura de obras que juntaram dois edifícios pombalinos, as cruzes de Santo André expostas, num amplo open-space de bom gosto insuspeito a quem passava. Escavou o telhado e fez um ninho alto para a filha, todo debruado a livros, bonecas, uma ardósia de alto a baixo para a miúda riscar a parede a impulsos – até zona de trabalho, vejam bem, com aquela idade. Chamava-se Mariana. Era deslavada. Ou como dizia a mãe de Rosa Maria, desluzida.

Ficaram logo as melhores amigas. O pai de uma era intelectual e de esquerda, o pai da outra fizera a guerra e emborcava aguardente com tiros de metralhadora e horrores desmembrados que não se contam em alfabeto civil goela abaixo. Só em código morse. Quando as recordações deram em apontar-lhe o dedo, passaram-no na última comissão para as comunicações e agora, por causa das duas miúdas, a sua própria e a outra, recebia e enviava mensagens ao vizinho doutor em copinhos de um gole só. Saúde, senhor doutor.

Rosa e Mariana eram uma dupla. E durante essa infância de Mercês Rosa foi feliz. Empoleirada lá alto também, riscava, lia, estudava. E ensinava a Mariana o que logo aprendera, ainda tão baixinha que ficava de pé numa cadeira enquanto vigiava o fogão. Rissóis. Croquetes. Pastéis de bacalhau. Um arroz de polvo tinto de vinho e outro de frango clarinho de vinho branco. A dobrada lavada e esfregada parecia uma esponja marinha de colecção, qual tripa de comer, qual o quê. O intelectual aprovava aquelas lides domésticas que ofereciam à filha a realidade tangível e lhe deixavam a casa em ordem. Quando a filha dizia puta da massa que pegou ou o cabrão do bife está duro como cornos, sorria e educava-a. Não deves falar assim, querida. Não vou proibir-te. Mas o pai preferia que não falasses assim, não te faz bem, não te controlas e prejudica-te a expressão, diminui-te o vocabulário. É como esta aguardente que o pai está a beber. Faz mal e sabe bem, então tem de ser com moderação, sim, minha querida? Sim, pai… ai a merda do arroz doce espapaçou!

Ora a tangibilidade só era possível porque a mãe da Rosa era uma dos Fiéis de Deus que dia a dia faziam com o seu trabalho uma Lisboa que já não existe, fechou. Nem existe quem nela vivia e empregava essa corte de fiéis. Mudaram-se de vez para a Linha e cortaram no pessoal encarecido com folgas, férias, décimo segundo mês e até 12º ano – vá lá que vieram os imigrantes de leste e nem todos com equivalências pedidas. Contudo, disto a filha não percebia nada, só sabia que eram pessoas importantes. A mãe não conhecera outro trabalho até casar, nem dormira fora do quarto ao lado da cozinha desde os onze anos de idade. Excepto se iam para fora, para a quinta, lá ia ela a reboque dos patrões como bagagem, de combóio, Portugal afora. Em novinha era faz tudo nas férias dos meninos, e ajudanta na cozinha, não era cá copeira, era ajudanta. Cebola cortada transparente de fininha, quilos de batatas descascados, mil claras em castelo batidas nas varas e na força e velocidade do braço.

Era tudo diferente hoje, graças a Deus, tinha casa própria, de parede cega, mas sua, de presente de casamento dos patrões, os filhos todos a estudar, e haviam de estudar tudo do princípio ao fim nem que fosse a toque de caixa. As pessoas não diziam, mas tinha havido muita miseriazinha quando ela era uma criança, e ir servir, assim, uma gente daquela, era uma sorte. Custava muito, chorava-se muito na cama, nem mãe nem ninguém, mas era tudo pelo bem e por amor aos filhos que se os punham fora de casa. E nem tinha do que se queixar dos pais, estudara até à quarta classe. Pouco proveito que a cabeça não lhe dava para a concentração e a mão não havia meio de obedecer às linhas a direito, esborratavam-se-lhe as letras gordas. Que haviam de fazer os pais dela? Mandá-la para Lisboa. Viam-na nas férias dos meninos quando voltavam todos à terra.

A mãe da Rosa era cozinheira, e que cozinheira, numa casa grande ali ao Príncipe Real. Isto, antes do edifício passar a sede de banco e a família que o habitava ir viver para o Estoril, claro. E Rosa, a mais velha dos irmãos, tinha que governar-se. Ó pois, como é que mãe vai trabalhar? Tens de tomar conta da Maria do Carmo e do João António, percebestes? E apanhava muita chapada que a mãe era explicativa. Esta é pelos erros no ditado. Esta é porque dourados não são queimados, ouvistes? E mais chapada porque a mãe tinha a mania das limpezas. Não era por mal. Como os dias na casa tão boa eram sem horário de saída, às vezes ficava com os nervos todos à flor da pele. Tanto ria como chorava.

Calhou até, pouco depois do médico se mudar lá para a frente, ter-lhe dado uma mania que de vez em quando vinha ao de cima: e que só se podiam acender as luzes carregando nos interruptores com os cotovelos porque as mãos sujas deixavam marcas. E vá de lavar tudo e muitas vezes, esfregar a bacia com Vim em pó depois de usar nem que fosse uma vez só, e ai se uma torneira não brilhasse, uma gritaria em puxões de cabelos sua porca.

Os comprimidos eram bons. Ela dormia mais, comia mais, mexia-se menos, chorava menos, gritava menos – havia algum descanso. Ao fim de um ano pesava mais dez quilos e parecia outra. Foi quando lhe morreu a mãe, lá na terra, a avó que Rosa nunca conhecera. Agora que a minha mãezinha está lá onde Deus a quis, qualquer dia deslargo aquela gente de má raça. Grandes unhas de fome, os filhos da puta, mais de vinte sentados à mesa para o jantar do ministro, os moços da escola de hotelaria a servir de graça à mesa, a fazer vista, todos fardadas, e aqui a criada a fazer de um tudo na cozinha sem ninguém para ajudar. Que é que tu achas, homem?

Ele achava que o cheiro da carne humana a queimar era doce e enjoativo e que das mulheres saíam guinchos demoníacos quando lhes matavam os filhos e lhes pegavam fogo depois de regados a gasolina. Era o som dos bichos no inferno, aquele coro de uivos, virara a cara para não ver, ele, que nada fizera, virara a cara e ainda via, até de olhos fechados e virava-lhe mas era o estômago e apunhalava-lhe a úlcera do juízo. Fazes, bem filha, fazes bem. Põe-te por tua conta. Ninguém tem essas mãos que tu tens: nem um rei tem comer melhor do que o meu, até pode ter comer igual, lá melhor é que não tem. Não vês que até o doutor parece outro desde que a Rosa lhe faz o teu comer com a moça dele? E o teu comer na mão dela é menos, tu sabes que é menos, não serve para criado do teu. Uma fraca figura e está outro, ganhou boas cores.

Um dia bateram à porta. Era a secretária da senhora. Vinha cheia de atenções e trazia-lhe as preocupações dos patrões. Em que podia ajudar? O que acontecera? Estavam todos bem? Pois diga a eles que morri. Soube-lhe bem causar este espanto. Usar cara de ingrata. Não era por ela que vinham. Era pelo valor de um bom trabalho de baixo custo. Percebia isso agora por via dos comprimidos. Repetiu com gosto. Pois diga a eles que morri. E morreu mesmo porque nunca tinha existido, nem feito descontos. Depois disto não voltou a ter aqueles nervos em serpentinas por dentro dela acima, a queimar da fúria da limpeza, mais corrosivas do que o Vim. Uns calores no peito como se fosse arrebentar se não rasgasse a camisa em ais. Uma fraqueza da cabeça a que terapêutica do doutor e a nova situação profissional puseram fim enquanto ela e as raparigas, a Rosa Maria e a Maria do Carmo, faziam tabuleiros de salgados que enchiam os cafés, e bolos tão franceses que se vendiam à fatia nos restaurantes caros. E tudo quanto eram doces conventuais. A filha do doutor ajudava. Nada mau para uma morta, hum? Calhordas.

Foram os melhores anos. O dinheiro contava-se em notas. Estava a vida de vento em popa quando o doutor e a filha como vieram, foram. Que o bairro agora era barulhento de garrafas de bebedeiras partidas. Que os estudantes ocuparam o lugar dos maricas artistas. Que nos bares, na rua, já não havia talento, era o bairro da moda, os intelectuais vinham de passagem, era só comércio, ruído e sujidade, e que até as próprias pessoas tinha perdido a autenticidade. Nada era genuíno. Não sei o quê do pitoresco perdido. Rosa não sabia o que era pitoresco mas fixou bem a palavra. Quem arrematou o sucedido foi o pai da Rosa. Pitoresco. Olha-me o fascista do comunista… e anda um homem a matar pretos para isto.

Para a Rosa foi um desgosto. Uma tristeza feita de choro para dentro. Quando cozinhava com a Mariana era livre como uma patroa, mesmo que estivessem a fazer as limpezas, era livre, era por amor, sem obrigação. Para mais era ela quem tinha as rédeas. Ensinava. E havia os livros. Os do quarto da Mariana e os da sala e os da estante à largura e altura do corredor. Nem pedia, era como se fossem seus. Lia-os e voltava a pô-los no lugar. Também alguma nódoa na camisa do doutor era como se fosse sua e ela tirava-a e deixava a camisa impecável no armário. Ai que raiva, ai que ódio do desgosto! E ele não lhe dava as mesmas explicações que dava à própria filha durante os trabalhos de casa, caralho? E ela era melhor aluna. Cozinhava melhor. Limpava melhor. Era mais bonita. Mais rápida. Fodam-se os dois, grandes cabrões.

Mas foram-se e, de repente, umas atrás das outras aconteceram as perdições a que não faltou a autenticidade – um espectáculo de genuíno pitoresco. Um dia o pai de Rosa estava bom e ao outro tinha um alto a sair do ombro para fora. A coisa crescia na directa razão em que ele se sumia, como se a carne lhe fugisse toda para o lado direito da cintura para cima. O rosto escaveirado era só olhos. Não queria comer. Dizia que tudo lhe sabia a talheres na língua, a metal e sangue. A mulher engordava de comprimidos lentos e nada de tabuleiros de salgados. Nem um bolo. Mais espapaçada do que a merda do arroz doce da Mariana. A custo lá se ouvia da mãe ai filha, ai filha. A Maria do Carmo e o João António ai mana, ai mana. O pai deixa-me morrer aqui na minha cama, Rosa, minha querida filha, tão loirinha. Dinheiro nada.

Uma tarde, estava a barbear o pai encostado nas almofadas, a cabeça quase tocava o rosário de cortiça envernizada que pendia ao lado desde o alto da cabeceira quando, ao ver aquele Jesus de lata crucificado e calado, lhe veio de dentro uma vontade de gritar e as serpentinas de fogo da mãe a quererem subir por ela acima para lhe rasgar o vestido a gritos. É que nem pensar, ó traste. A cruz é tua.

Deixou o pai morrer em casa como ele lhe pedira, todo olhos. Amparou a mãe aos desmaios pelo cemitério fora, chegada ao quarto deitou-a e toda de preto, ainda mais loira, uns centímetros de salto, saiu para a rua em passo acelerado, quase fugia. Aos Inglesinhos estacou. Adiante um letreiro, à porta do restaurante novíssimo de trespasse: precisa-se ajudante de cozinha. Dê-me trabalho que acabei de enterrar o meu pai. Pode começar amanhã. É o ordenado mínimo e as gorjetas a dividir por todos. Começo agora. Lavou um desatino de louça, esfregou bancadas, o chão, desinfectou o corpo com lixívia pelos poros dentro, o suficiente para dar com as serpentinas em cinza. Arde para aprenderes a não queimar. Quando caiu na cama dormiu que foi um sono santo.

No dia a seguir, chegou cedo ao restaurante para descobrir que afinal só pagavam dois terços do ordenado mínimo porque estavam a começar. Vão apanhar no cu, chulos de merda.

Inspirou. Fundo. Expirou.

Despachou a mãe no comboio para a terra, recomendada à irmã dela, a sua tia, que tinha casa, horta e viuvez para dar e vender, logo fosse orientada com o que recebia do falecido. Duas irmãs, dois falecidos, duas meias reformas, uma casa e uma horta. Muito bem. E ela lá se foi, mansa e medicada, Portugal afora a passar-lhe à janela como de costume, no comboio do costume. Ser trabalho. Ser bagagem. Parir trabalho e bagagem. Mais nada. Deus ma livre, disse Rosa enquanto se benzia depois de acenar adeus, adeus.

Foi falar com o padre Jacinto, o dos drogados, ouve puto, iá, eu manjo a tua cena, conhecia-o desde que ele começara a enviar os convertidos à metadona, amén, para conversarem com o doutor na esplanada do café do Zé Bomba, assim uma terapia grátis, e pediu-lhe que a ajudasse a enfiar o irmão naquele colégio de Jesuítas onde ele tinha estudado até com gente rica mas pouco dada a pagar, onde era? Que sim, Rosinha, tudo fixe. Até ao 12º ano estava garantido. Pois que garantissem também as férias que ela não ia buscá-lo, não podia.

Maria do Carmo, tens de te fazer à vida, rapariga. Ganhar juízo nessa cabeça. Disse à irmã. Juntas levantaram o pouco guardado na Caixa Geral de Depósitos: cheirava a cebola e a crianças regadas a gasolina e ainda diziam que o dinheiro não tinha cheiro. Tirou os móveis de casa para fora, não ficou um prato, até o biscuit de feira, um casal com uma pombinha, e a Nossa Senhora de Fátima que mudava de cor para acertar na meteorologia. Cinco vidas e uma morte no meio da rua: roupas, colchões, alguidares, bonecos. O rosário de cortiça. Nadas. Pois agora o dinheiro cheira a tinta e a Ikea. Não andara uma hora atrás da outra metida na vida da Mariana? Ia alugar a casa à semana. Casa Água da Flor. Very typical. Modern confort. Máximo 4 pessoas. 100 euros por noite com limpeza e muda de roupa. E eu? Tu vais para a casa da madrinha e com o que fizermos de renda, pagas-lhe o quarto e trata de não perderes ano nenhum senão ponho-te a trabalhar. Isto dá para as minhas propinas. Com o que mais arranjar por aí em part-time, alugo um quarto ou vivo com um namorado que esteja sozinho e não queira dividir despesas. Não tens namorado. É só escolher um que se aproveite. Quando chegar a tua vez dá para pagar as tuas propinas. Se engravidares dou-te uma sova que te deixo negra e levo-te a fazeres um aborto. Percebeste? Mas eu nunca dormi com ninguém. Pois vais dormir e é bom que abras a pestana quando abrires as pernas, para não te deixares emprenhar, Virgem Maria.

A Maria do Carmo terminou a secundária em São Pedro e só voltou a Lisboa quando entrou na Faculdade de Direito. Excelente aluna a toque de caixa. Não era bonita como a irmã, muito atarracada, de ombros largos, quase sem mamas, ancas estreitas, só lhe restava ser magra e ter boas notas. O medo do desemprego e da solidão fora ultrapassado com a ordem de Rosa. Foste tu quem escolheu direito, não foste? Fiz-te a vontade. Agora fazes tu a minha e acabou-se a conversa. Tens de fazer o doutoramento e ficar a dar aulas. Ai de ti se não te conhecerem pelas notas ao fim do segundo semestre. Na verdade, conheciam-na mesmo na televisão. Quando era preciso um especialista em direito do trabalho, a comentadora de serviço era a Professora Doutora Maria do Carmo Antunes, selecta, contida, pausada, segura de que cada parecer seu valia um esparrame de dinheiro na conta. Pareceres para o governo. Pareceres para a oposição. Pareceres para os sindicatos. Pareceres diabo a quatro e mal tinha trinta anos. Entrara na faculdade, é certo, todavia jamais sairia. Sentia-se bem. Protegida. Confiante da sua minuciosa capacidade de trabalho. Uma temível rainha do formigueiro.

O miúdo tivera sorte. Fora uma daquelas coisas. Dos Jesuítas para o seminário de livre vontade. Haveria de morrer pobre e feliz na altura da limpeza das favelas de São Paulo elevando ainda mais alto a voz da teologia da libertação. Adoravam-no como a um Cristo, àquele quase menino de olhos incendiados pelo Deus dos pobres. O fogo era o drama dos homens daquela família. Não havia nada a fazer, trouxera o destino do pai: do bairro para favela, imolado.

Estava calor. Um daqueles dias de Verão que só querem mar. Mariana ia a entrar na Rua da Rosa, por cima, pela Dom Pedro V, quando a viu. Rosa. Rosa. Rosa. Nada. Mas é ela. Rosa. Ó Rosa. Nada. Estava de calças de ganga e sandálias rasas, então deu uma corrida. Apanhou-a. Tocou-lhe no ombro. A cabeça loura voltou-se, o rosto iluminado por aqueles olhos ainda mais claros de azul do céu tão branco. Um sorriso. Ó Rosa, venho a chamar-te desde lá de trás. Não me ouviste. Mariana, és tu? Claro que sou. Que bom ver-te. Ouvi, mas não reconheci a voz e ninguém me trata por Rosa há tantos anos que nem me lembro que tenho outro nome que não seja Maria. Ó filha, tu estás um espanto. De facto Rosa estava a sair de uma loja na Dom Pedro V, em Lisboa, como poderia estar a sair de uma loja em Rodeo Drive, em Los Angeles, ou no Faubourg Saint-Honoré, em Paris. Simples, chic, caríssima simplicidade chic dos sapatos ao fabuloso relógio discreto. O que fazes por aqui, Mariana?, há quanto tempo? Vou abrir um restaurante vegetariano e um estúdio de yoga onde foi a nossa casa. Estive na Índia, pratiquei com o filho do próprio Pattabhi Jois, acreditas? Tu sabes lá, mulher, as coisas que tenho para te contar. Anda, mostro-te as obras. E tu, Rosa, conta-me tudo, minha cabra, estou tão contente. Maria, estou mais habituada a que me tratem por Maria, querida. Olha, casei um Sousa Coutinho. Um Sousa Coutinho? Desde quando é que tratas uma pessoa pelo nome da família a que pertence? Estás armada em cagona ou quê? Não, querida, as coisas são como são, e o meu marido herdou o título de Conde de Soure, porque ele foi entregue por casamento ao Conde do Redondo, seu trisavô. Tenho a maior consideração pela família a que pertenço, pelos meus filhos – tenho dois gémeos com três anos, uns amores. Não tem que ver com títulos pretendidos, Mariana, pelo amor de Deus, não temos monarquia. São pessoas fantásticas, fizeram muito neste país. Ó Rosa, merda para essa conversa, deixa-te lá de tretas que é comigo que estás a falar. Que doida… que idade é que temos, Mariana? Disse-lhe Rosa com um longo sorriso. Quase a rir: o yoga não te disciplinou a língua, menina. Olha, dá-me um beijo, querida, se calhar só nos voltamos a ver daqui a outros vinte anos. Foda-se, Rosa, vais-te embora assim, parece mentira, isso não é teu. Já te disse, Mariana, trata-me por Maria, Rosa é a puta que te pariu.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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7 respostas a Rosa

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Foi há três ou há quatro anos? Sabe que o tempo só lhe fez bem? belas descrições, personagens vivas em três pinceladas e uma Rosa – é Rosa não é? – de fazer calor em todo o Bairro Alto. Já tinha gostado muito então, gosto mais agora.

  2. adelia nunes da fonseca riès diz:

    “La chute” é fantastica. Gostei muito.

  3. Senhora A. diz:

    Foi o primeiro conto que li com vontade.
    Gostei muito! Espero por outros. 🙂

  4. riVta diz:

    Mas que boa surpresa ver aqui plasmado este conto. Boa!

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