Uma câmara na dita cuja

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“Pelo sim, pelo não, deixo aqui o meu fraternal conselho ao dileto leitor: ao praticar o tradicional fuque-fuque com uma senhora comprometida, instrua o seu pênis a sorrir ao adentrar a cena vaginal. Vai saber se o charmoso carequinha não está sendo filmado.”

 

Que a tecnologia do presente permite infinitas possibilidades de espionagem da vida privada de cada um, isso já não é novidade para ninguém. Que a devassa chegue ao núcleo mais íntimo da privacidade do cidadão comum – por exemplo, o fuque-fuque lá de cima – é coisa que nós já sabemos, ou pelo menos imaginamos, ao alcance de qualquer câmara marota com vista para um colchão que convide à cambalhota. Mas se o delírio voyeurista chega ao ponto da monitorização online pelo marido desconfiado do trânsito vaginal da sua senhora, aí, alto lá, já não dá acreditar, só pode ser coisa de ficção científica.

Não dá para acreditar? Pois é, este que vos escreve, na sua bem intencionada ingenuidade, recusava-se a ter como verosímil uma fantasia dessas até ao dia em que viu com os seus próprios olhos, através da tela do Iphone de um seu pobre amigo corno, os resultados de um inqualificável plano para tirar a limpo uma velha suspeita sobre o (des)apego da sua mulher à mais imprescindível das obrigações conjugais, que é, está-se mesmo a ver na tola de um macho inseguro, a da fidelidade. Para vos poupar ao relato escabroso dos detalhes que o masoquismo do meu amigo me sujeitou, limitar-me-ei a contar-vos, muito genericamente, e apenas para evitar que sejam as próximas vítimas de um artimanha deste tipo, como é que se deu a conjugação de factores que permitiu o que os meus olhos incrédulos viram.

Pois bem, digo-vos então que o marido desconfiado conseguiu convencer um seu amigo ginecologista, a pretexto da necessidade de uma limpeza ao dispositivo intra-uterino (DIU) da mulher suspeita de actividades adúlteras, a instalar uma indiscretíssima micro-câmara no colo do útero da dita, usando, imagine-se, o próprio DIU como suporte. Com uma particularidade: a microwebcam estaria capacitada para enviar o sinal com as imagens captadas no canal vaginal para o Iphone do maridão. Tudo isto durante vinte dias, tempo de duração da bateria, vinte e quatro horas por dia, estivesse a suspeita mulher onde estivesse, desde que no raio de alcance de uma antena de operadora de comunicações móveis.

Escusado será dizer-vos quão indigesto foi – parece que logo no dia seguinte ao da instalação da câmara – o meu pobre amigo corno dar com as delicadas membranas genitais da sua mais que tudo a serem invadidas, em tempo real, por uma protuberância que não era a dele – e desconfio que bem mais agitada e exuberante do que seria a dele na intimidade conjugal. E, porque uma desgraça nunca vem só, o suplício, não só durou longos e intermináveis minutos de fervoroso vaivém (provavelmente uma eternidade para os padrões lá de casa), como acabou da única forma pela qual poderia ter acabado: com um vigoroso esguicho proveniente da glande invasora que, pegajosamente, se colou à clandestina lente e lhe obstruiu para sempre as propriedades voyeurísticas, naquilo que, nas palavras desesperadas do meu amigo enganado, lhe pareceu um “lance radical de experimentalismo cinematográfico”.

Bem sei que, numa situação tão embaraçosa, seria de bom tom, e mesmo imperativo da mais elementar solidariedade masculina, não trazer a público uma história deste calibre, e muito menos citar a fonte que a trouxe até mim. Acontece que a fonte é nada mais nada menos do que um dos mais desconcertantes e originais escritores de língua portuguesa da actualidade, o paulista Reinaldo Moraes, autor do genial Pornopopeia, sobre o qual já aqui escrevi. Em O Cheirinho do Amor – Crónicas Safadas, compilação de textos de Reinaldo Moraes feitos para “revista adulta voltada para o público masculino”, o caro leitor curioso – leitor e leitora, porque as mulheres não devem de todo ser desincentivadas a ler a prosa delirantemente inventiva de Reinaldo – pode encontrar os detalhes e qualidade literária que faltam ao esboço que vos deixei acima (que, embora se inspire no relato de uma das crónicas que aí se encontram, é da minha modesta lavra), bem como muitas outras histórias que só a cabeça e escrita de Reinaldo são capazes de produzir – todas, claro está, relacionadas com o assunto que mais espaço ocupa na psique humana, seja ela de homem ou mulher.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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8 respostas a Uma câmara na dita cuja

  1. teresafont diz:

    O que me ri a ler isto, Diogo. Obrigada-pelo fantástico texto, pelas risadas, pela informação acerca das diversas possibilidades da tecnologia, que não para de nos surpreender e pelo autor citado, que não conhecia mas vou já procurar.

  2. Diogo Leote diz:

    Agradeço as suas simpáticas palavras, Teresa. Mas o mérito é todo do Reinaldo, para o qual a remeto sem demoras, mesmo que, como o próprio o diz, a sua escrita “esteja sempre dialogando com um hipotético leitor homem”. O Pornopopeia é uma obra prima incontornável, da literatura erótica e da língua portuguesa.

  3. Só posso comentar com uma boa gargalhada e lamentar o imenso o peso que deve carregar este senhor.

  4. Diogo Leote diz:

    Para mais gargalhadas e lamentos, aconselho ir à fonte directamente: o Reinaldo estará lá para a surpreender a cada palavra.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Diogo, lá vou eu dar cabo do património em livrarias. Seu Reinaldo não perde pela demora…

  6. Diogo Leote diz:

    Manuel, não te preocupes, seu Reinaldo, apesar de escritor raro, é barato: não há grande luxo (a não ser o da própria escrita) nas suas histórias sórdidas.

  7. nanovp diz:

    O livro já há lá em casa…só o livro repito…

  8. Diogo Leote diz:

    Bernardo, está descansado, podes ler à vontade: na escrita do Reinaldo, só o humor e a qualidade literária contagiam, não os vícios dos seus personagens.

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