Under the Influence

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Life. Novembro de 2015

Keith Richards, o bluesman branco mais genial de Dartford, nasceu a 18 de Dezembro de 1943. Abreviando as coisas, bebeu inspiração em Chuck Berry, Jimmy Reed e Muddy Waters, encharcou-se em drogas e Jack Daniels, e fez-se a alma musical da maior banda de todos os tempos. Pelo meio compôs, tecnicamente a dormir, a lendária Satisfaction. No dia seguinte a memória tinha sido posta a zero e foi por acaso que o velho gravador Phillips lhe devolveu a canção que tornou os Stones famosos no Mundo inteiro. Já mais recentemente, numa histórica entrevista em 2007, e poucos anos depois em Life, a extraordinária autobiografia que, já o adivinharam, dorme na minha estante, Richards faz uma revelação que haveria de chocar meio mundo: snifou as cinzas do pai.

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Under the Influence. Novembro de 2015.

Fast Forward. Os meus filhos andaram quinze dias a cravar-me uma assinatura da Netflix. By the way, uma tremenda desilusão. Mas a verdade é que no meio de muita tralha encontrei uma espécie de versão visual de Life. Keith Richards, Under the Influence é um belíssimo documentário sobre, já o adivinharam, o bluesman branco mais genial de Dartford. Menos provocador e mais intimista, o documentário chega a ser comovente. Fixei, por exemplo, a primeira gravação dos Stones no estúdio Chess Records em Chicago. “Tantas moradas e eu nunca esqueci aquela“. Entre outras coisas porque ao atravessar um corredor estreito reparou num negro, pendurado num escadote a pintar o tecto. A tinta branca a escorrer-lhe pela cara. Ao passar por ele, o engenheiro da Chess arranjou tempo para dizer: “já agora, este é o sr. Muddy Waters“. O aluno dilecto dera de caras com o professor de sempre. Ou, mais lá para o fim, a história do reencontro feliz de Keith com o pai. Ao fim de 20 anos. O tal que haveria de snifar. Pelo meio um postal e a ajuda de Ronnie Wood. “Porque estava cheio de medo“.

Entre muitas outras coisas, Keith Richards, Under the Influence, é uma bela história (e uma belíssima fotografia de Igor Martinovic) de encontros e desencontros. Com Chuck Berry, Muddy Waters, Jagger, Richards Sr. e com todos nós que nunca verdadeiramente nos desencontrámos dele.

Vou continuar a tocar.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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4 respostas a Under the Influence

  1. Diogo Leote diz:

    Olha que bela dica para um gajo como eu que vibrou com o Life, que também assinou a Netflix e que, tendo-o feito por causa das magnificas séries de televisão que por lá andam, ainda não se desiludiu.

  2. Pedro Norton diz:

    vais gostar. e desconfio que o bernardo também.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Vou ver. ele toca a malagueña? É o teste essencial para um guitarristas.. Keith richards dixit.

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