Yasmine

Está em Lisboa, vinda do Médio Oriente, mas não é refugiada. Aliás, se há refugiados nesta história, são todos os que, como eu, tiveram o privilégio de ser sequestrados pela sua voz e nela se refugiaram para sempre. Comigo, aconteceu-me no mais improvável dos lugares, com as mais improváveis companhias. Numa viela escura de Tânger, a altas horas da noite, numa cave para onde fui atraído – pois é, adivinharam – pelo som sensual e serpenteante da voz que de lá chegava até à rua. Entrei e fiquei. No ar, pairava uma estranha atmosfera. Estranha e fascinante. Numa mesa a um canto, uma figura andrógena que era a cara chapada da Tilda Swinton, e que me olhou – quase que vou jurar – com um fio de sangue a escorrer-lhe da boca. Para a coisa ser ainda mais bizarra, andava por lá um ser com uma popa branca igual à do Jim Jarmusch com uma câmara ao ombro a filmar o acontecimento. Todos os olhares – menos o da sósia da Tilda Swinton que continuava fixado neste vosso pobre amigo – estavam concentrados num palco improvisado, onde cantava e dançava uma mulher de uma beleza assombrosa, dona da voz que me levara até ali. Tinha o nome mais bonito do mundo, Yasmine. Lembro-me de ter pensado que, se uma filha tivesse, era assim que lhe queria chamar. Sem perceber uma única das palavras cantadas em árabe, percebi tudo. Pelo menos o suficiente para querer ter aquele som sempre dentro de mim. E também percebi a estranheza do lugar, do ambiente, da música. Estava rodeado de vampiros, a figura andrógena era mesmo a Tilda Swinton, o ser da popa branca de câmara ao ombro era mesmo o Jarmusch e havia um filme para rodar, Only Lovers Left Alive. Mas o acontecimento, para quem como eu ficou cativo da sua voz, continuou, então e depois, a ser a própria Yasmine.

Mais tarde fiquei a saber que a Yasmine tem Hamdan no apelido, é libanesa, vive em Paris, e, apesar de andar a encantar almas sensíveis em Tânger, é casada com o mais mediático dos palestinianos que persegue a paz através da arte, o actor e realizador Elia Suleiman.

Tudo isto para vos dizer aquilo que já vos disse: a Yasmine está agora em Lisboa. E quase que aposto que amanhã, lá para o fim da tarde, as ruas próximas do teatro onde vai cantar se esvaziarão. Como se esvaziaram as vielas escuras de Tânger onde a sua voz me apanhou.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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2 respostas a Yasmine

  1. teresafont diz:

    Obrigada, Diogo. Que bela Yasmine e que bem que foi apresentada. A insónia passa-se melhor com estas coisas. E não é nada pouca coisa que assim seja. Até breve.

  2. Diogo Leote diz:

    Teresa, fico contente que tenha gostado. A Yasmine, naquela noite em Tânger, também me deixou sem dormir.

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