A carta ardente de Guillaume Apollinaire

lou

A bela Lou, capaz de nos abrir um buraco no bolso direito

A condessa Louise de Coligny-Châtillon passou à História, por amor, como Lou, simplesmente e sem precisar de ser mais do que Lou. Imortalizou-a Guillaume Apollinaire em poemas e cartas. Encontraram-se em Setembro de 1914. Amaram-se, de amour fou, durante alguns meses, até Apollinaire ser chamado para a guerra. Depois, ele escreveu-lhe 220 cartas, mas acabaram por romper em 1915. Não durou um ano e foi como se tivesse durado uma eternidade.

Não era um amor sensato, nem bem comportado. Era uma amor desabrido, desbocado, que dizia tudo, que fazia de cada palavra muito feia, uma palavra muito bonita. Há amores assim, inefáveis, impolutos, virgens de segundos sentidos, por só terem um sentido. O firme e doce sentido do amor.

Se eu divago? Digam-me os Tristes leitores deste blog, depois de lerem esta carta de Apollinaire a Lou, que eu traduzi com a fidelidade que é a minha maneira de ser fiel. E se têm dúvidas, podem ir aqui ler o francesíssimo original. Trago-a agora, depois da meia-noite. Sabe melhor lê-la pela soberba calada da noite, quando as nossas cabeças humanas se enchem de tentações de Santo António.

Carta de Guillaume Apollinaire a Lou
escrita em Nîmes, a 13 de janeiro de 1915, vai agora fazer 101 anos

[…] Lou, peço-te, uma vez mais, que não passes o tempo a masturbares-te. Vou ter ciúmes desse dedo. Quero que me digas quando o fazes e quando consegues resistir um pouco. Acho que tenho de te corrigir o vício. Não te esforças nada para isso. És deliciosamente linda e não quero que te esgotes em prazeres solitários. Quero reencontrar-te prodigiosamente fresca, caso contrário terei de te dar umas boas palmadas, como a um estudante que se desfizesse em punhetas em vez de aprender as suas lições. Quando andávamos no colégio, fazíamos um buraco no bolso direito, metíamos por ali a mão e fazíamos tudo isso durante as aulas. De olhos fechados. Mas eu não quero que uma menina crescida como tu, que tem um cu soberbo e que já fez do seu marido um realíssimo corno, passe o tempo na punheta como um rapazinho tonto. Se continuares assim, vais é levar com o chicote, minha menina, um chicote que te ponha na linha. É bom que ponhas uma placa de metal no rabo, porque eu vou dar-te tanto nessas nádegas, até que sangrem, para que nem consigas sentar-te. Pagará o teu cuzinho por essa linda coninha, minha querida.

Desejo-te perdidamente. Já não aguento mais. Não sei quando e se me darão licença para ir até Nice, a não ser daqui a uma eternidade. Faz-me falta que estejas aqui. Se soubesses como tenho vontade de fazer amor contigo – não imaginas. Tenho a cada instante a tentação de Santo António pelas tuas tetinhas queridas, pelo teu esplêndido cu, pelos teus pêlos, esse teu buraquinho negro, tão doce e tão, tão chegado à tua outra irmãzinha. Passo o tempo a pensar nisso, na tua boca, nas tuas narinas. É um verdadeiro suplício. É extraordinário quanto te posso desejar. Fazes-me esquecer as minhas antigas amantes de uma forma impensável. E se elas eram lindas. Já só as vejo como se fossem me..da. A inglesa que era avassaladora, loura como a lua, bicos das mamas pulposos, que se empinavam mal os tocava e a punham a ferver, um cu mirabolante e um cinturinha que me levava ao delírio. Agora, já não vale nada. Marie L., figura de deleite, um dos mais poderosos traseiros do mundo que eu trespassava com um gozo acre. E já não me parece mais do que lixo. Só tu, minha Lou adorada, minha cativa querida, minha seviciada amada, só tu existes. Minha Lou, só me lembro do inenarrável 69 que fizemos em Grasse.

Quando nos reencontrarmos, recomeçamos. Se isto continuar assim, temo que tenha também eu tenha de bater uma punheta em tua honra. É preciso ser-se muito infeliz para se estar privado de ti. O desejo, à medida que cresce, converte-se num suplício. Cubro-te todinha de beijos, esses pezinhos queridos que gosto tanto de chupar entre cada dedo, subo em dentadinhas pela barriga da perna até às belas coxas. E paro no centro e percorro demoradamente com a língua esse pedaço que separa os teus dois buracos adorados. Adoro-as todas, as nove portas sagradas do teu corpo, a vagina real onde ferve o voluptuoso mel  que me afoga, ó querida, e donde se solta o ouro em fusão do teu mimoso pipi, as preguinhas do ânus amareladas como um chinês, que te faz gritar de dor acre quando eu to meto, a boca adorável com a tua saliva a saber a fruta de que tanto gosto, as duas narinas onde te enfio a minha língua r tiro esse delicioso e delicado sabor salgado, e essas duas orelhas tão quentes, tão nervosas. As nove portas do teu corpo são as entradas para o mais belo, mais nobre palácio do mundo. Nem sabes quanto o amo, meu amor. E já me esquecia dos teus olhos ardentes e salgados como o mar, mais profundos que abismos. Nove portas, ó minhas nove musas, quando vos voltarei a ter? Minha querida, minha querida, nem imaginas a que ponto te queria. Diz-me, quem são esses teus amigos que agora estão em Nice? Lou, não quero que te chateies, diverte-te que não quero que te aborreças, mas também não quero que vás mais longe do que o que deves, e que tu bem sabes. Mas, Lou, não te masturbes demasiado. Escreve, faz qualquer coisa. Eu beijo-te, amo-te, adoro-te, chupo-te, fodo-te, enrabo-te, lambo-te, faço-te um botão de rosa, um fofo minete, tudo, tudo, tudo, absolutamente tudo minha adorada, como-te toda,

Teu, Gui.

Apollinaire

Guillaume Apollinaire, pronto para a guerra, toda a guerra

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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14 respostas a A carta ardente de Guillaume Apollinaire

  1. Nem sei, nem posso, nem devo comentar. Está tudo tão bem documentado !!!

  2. EV diz:

    O Santo António mandou dizer que isto não são tentações, são escandaleiras!

  3. b. diz:

    “Todas as cartas de amor são
    Ridículas.”

    • É verdade, B.
      Mas como é que disse também, quem um dia disse isso? Ai de quem na vida nunca foi ridículo?

      • b. diz:

        O carácter supostamente redentor e imprescindível do ridículo nada tem a ver com a carta em si.
        Interesssante que o, chamemos-lhe assim, “côté bordel” ou libertino, não melhore a dita. É caso para lembrar o outro que bem prevenia que não é com boas intenções que se fazem bons poemas – ou se escrevem cartas de amor.

        • Manuel S. Fonseca diz:

          Tenho uma conversa marcada com o Gui. Dir-lhe-ei o quanto o B. faz fine bouche à escrita dela. Mas como não gosto que nenhum morto desfaleça de desgosto, espero consolá-lo com a minha franca admiração.

          • b. diz:

            Je ne voulais pas gâcher vos sympathies. Si, de quelque façon, il m’est arrivé de le faire, ce ne fût pas exprès.
            Veuillez agréer, Monsieur, toutes mes excuses.
            Une Bonne Année.

  4. pedronorton diz:

    Só me faz espécie a parte das nove portas. Também não é preciso cegar a menina. Foda-se, acrescentaria.

    • Não sei, não sei. Se calhar já não se lembra, mas naqueles 21 telefimes que produzimos juntos, havia um, o Alta Fidelidade, em que uma menina, uma Lou, quando o namorada foi de viagem, dormiu com o melhor amigo dele. Depois arrependeu-se um bocadinho e era isso que explicava ao querido namorado que lhe azucrinava a cabeça a tentar – era estúpido e jovem – saber pormenores e como tinha sido e o que fizeram, enfim, uma dor de corno de dar pena ao próprio. Vai daí, ela numa exaltação dá-lhe um empurrão e diz: “Queres saber se me vim, é? Vim, caralho, vim-me, Até pelos olhos eu me vim!”
      Vê como esta merda cega!

  5. Bonne Année b. Apareça sempre, en français ou em português. E acredite que não estraga coisa nenhuma. No meu adiantado estado de velhice já sou inabalável. E já me dá para gostar de tudo: tão pouco tempo e ainda tanto para gostar.

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