A cor imensa da sua felicidade

 

 

 

G. Caillebotte. Jeune homme à la fenêtre.

G. Caillebotte. Jeune homme à la fenêtre.

Visto de trás todo ele era sombra. Sombra, negro vazio da sombra, que fingia ser fato, calças e abas de casaco, e que era o tempo perdido a entreter o presente. Rugas e esquimoses de presente. Artrite de presente. Anquilosado a olhar para dentro, a olhar para as vísceras do tempo em si mesmo. Reformado de si. Atrofiado de si. Um infinito que jurara ser de pedra. Relógio sem pulsar, orvalho a secar, amor a coagular. Presente sentado, presente deitado. Sombra surdíssima que tolhe, pesa, resigna, imobiliza. Presente granítico. Basalto que afoga.

Visto de trás mal podia acreditar no que via deixado de trás. O presente, percebia-o agora numa epifania que dispensava qualquer Deus, é um terrível feiticeiro, um xamã de um profundo verde amazónico. Uma cave, um rés-do chão da vida. Faz-se passar por passado, disfarça-se de visão do futuro. O presente é bolor e é doença. Uma condição. Está-se presente, vive-se presente, sente-se até, presente. Mas não se é verdadeiramente presente. Ninguém é presente. O presente é um ilusão. Uma fenda finíssima no tempo. Mas uma fenda e uma ferida que se podem fazer antíteses de memórias imaginadas e profundas. Hoje para sempre, eternidades sufocantes de mentira, de si para si.

Visto de trás, via agora, atrás do revés de si, luminoso, o futuro. A fazer-se luz para além da amurada. Via a rua, esguia, a serpentear para todos os amanhãs brancos do Mundo. Os que seriam, os que não seriam porque não precisavam verdadeiramente de ser, os que desembocariam em praças de império, os que se torceriam, suaves, em boulevards de arborizadas promessas. Visto de trás, era o sol que lhe aquecia, em plena face, a libertação de todos os amigos, de todos os amores, de todas mãos, de todos os corpos nus de verdadeiro tempo. O presente largara as amarras, a cadeira puída que fora o túmulo do hoje, abrira-se em bíblico milagre. O morto que era em si levantara-se e andava. Era paixão e trocava, trocista, as voltas a todos os cristos de todas as escrituras.

Visto de trás, olhava agora, nonchalant, de mão nos bolsos, burguês de alegria, o futuro. De frente. E o futuro, vá lá perceber-se porquê, o futuro sorria de meninice. E era radioso de infância o sorriso que, também ele, devolvia ao futuro. Pobres de espírito, pensava de si para si, os que não viam na imensidão da tela o seu reflexo de lá.

A cor imensa da sua felicidade.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
Esta entrada foi publicada em Museu das Curtas. ligação permanente.