California Dreaming

Esta é uma canção que anda sempre pela minha vida. California Dreaming. Pode ser cantada assim, com sofisticação, um módico de distância, o labor instrumental a fazer tempo, a fazer género.

Também pode juntar-se um coro para a cantar, uma sublime afirmação das formas, exercício virtuoso em que a canção original, a sua prosaica intenção, já são secundárias, já foram esquecidas.

E depois há a simplicidade saloia, esplendidamente saloia, de quatro californianos que no frio inverno de Nova Iorque morrem de saudades do calor e da liberdade informal de Los Angeles.

Foi há meio século, em 1965, ia eu fazer 12 anos. Os Mamas and Papas nem sequer imaginavam, por nunca se poder imaginar, que estavam a pôr na fogueira da então nascente contra-cultura, mais achas do que a lareira algum dia tinha tido.  Canção de celebração feliz do calor, da vida quente, de ruas de sol e palmeiras. Tudo em antífrase sonhado – a cidade em que se canta é Nova Iorque, numa angústia de frio, no refúgio (ou espartilho) de uma igreja, de joelhos no chão para melhor fingir que se reza.

E o diabo é que é uma das grandes canções do século, escrita pelos dois rapazes, aparentemente tontos, do vídeo. Bem aventurados os tontos que que vêm de Los Angeles, porque deles é o céu da contra cultura.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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3 respostas a California Dreaming

  1. EV diz:

    Já me ri com o céu da contra cultura… E olhe que estou bem capaz de fazer as malas e ir para NY cantar o calor californiano!

  2. nanovp diz:

    Um hino…basta ouvir os primeiros acordes e estou a descer Laurel Canyon em direcção ao Pacifico e ao calor suave da tarde alaranjada….

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