Dos 7 aos 77 anos de idade

O que é que um tipo com vocação-de-solitário-em criança-nos-anos-70 responde quando lhe entram pelo escritório dentro, com uma câmara na mão, e lhe perguntam qual foi o brinquedo que mais o marcou na infância? A primeira reacção é a óbvia, a de dizer que não responde a inquéritos com intuitos psicanalíticos ou sabe-se lá para quê, muito menos no seu local de trabalho, que não está para ser vítima de galhofa de colegas de trabalho e sabe-se lá de mais quem, etc e tal. Mas quando lhe puxam ao sentimento e lhe dizem que o seu depoimento é para uma acção de solidariedade, para uma campanha de Natal para recolha de brinquedos para crianças que a eles não têm possibilidade de aceder, então não há como continuar a dizer não. E, se tem mesmo de responder, só pode dizer que não foi bem um brinquedo, foi uma revista e não sabe se uma revista pode entrar na categoria dos brinquedos. Mas, se brincar é também, e sobretudo, levar a imaginação de uma criança, de um adolescente, a outros mundos, então, claro que sim, não há brinquedo maior, para quem quer tenha entre 7 e 77 anos, do que a revista Tintin.

E o que dizer se um tipo já não tem 7 anos de idade, mas anda longe dos 77 e a revista Tintin já não existe? O que pode dizer um tipo armado em escrevedor que ainda não abandonou as pretensões a Peter Pan, trinta ou quarenta anos depois da revista Tintin, quando lhe perguntam se ainda tem um brinquedo que leva a sua imaginação a outros mundos?

Pois é, faz hoje quatro anos que esse tipo tem resposta para a pergunta. Faz hoje quatro anos que, orgulhosamente, pode responder que sim, que ainda tem um brinquedo, e quer levá-lo consigo, pelo menos, até aos 77 anos.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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7 respostas a Dos 7 aos 77 anos de idade

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Ah, grande Diogo, estás resplandecente. E viva o Tintin.

    • Diogo Leote diz:

      Manuel, sabes que eu até sonho que saio de casa a correr mal o sol raia à sexta de manhã para ir comprar a revista Escrever é Triste?

  2. Teresa Conceição diz:

    Que graça este vídeo, Diogo.
    Que bom este seu brinquedo, e que bom falar assim dele e ser assim transportado. Apetece logo ir à boleia.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Grandes memórias e grandes presentes…

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, é o que te digo: um gajo que vive de memórias não vive nada mal, desde que elas sejam boas.

  4. Diogo Leote diz:

    Só tenho pena de uma coisa: que não tenha sido a inigualável Teresa Conceição a irromper-me pelo escritório de câmara e microfone na mão.

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