É o som da distância

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É o som da distância.
O som do cimo da montanha, o som dos quilómetros entre cumes num dia limpo e calmo.
É o som que cheira a terra. O som que se ouve nos dias cinzentos depois de passada a chuva, quando os cães ainda estão molhados demais para ladrar.
É o som da sesta. É o som que se ouve às quatro da tarde alentejana
quando as paredes grossas isolam do mundo as crianças
que dormem mantendo uma silenciosa e abençoada mudez.
É o som do preto. O som que se ouve no mar alto quando a água é azeite
e a ausência da lua torna indistinguível o preto do mar do preto do céu.
É o som da solidão. O som que se ouve enquanto pensamos nas imagens de todas as vidas de que não fazemos parte.
É o som da pausa. Da pausa de semibreve, da suspensão no meio do fraseado de uma sonata, do tempo entre dois andamentos de um concerto quando,
desconfortáveis na poltrona, não nos mexemos para não quebrar a magia.
É o som do branco. O som do nevoeiro envolvendo a montanha nevada,
branco que a toda a volta nos apaga as referências,
coisa de manicómio, de doentes que não distinguem o cima do baixo, a direita da esquerda.
É o som da exiguidade. O som do armário escuro onde, escondidas, as crianças brincam.
É o som do embaraço. O som que se ouve num elevador de um prédio de escritórios
subindo cheio de estranhos às nove da manhã.
É o som do suspense. O som que antecede a facada, o trabalhar da motosserra,
o grito ao dobrar da esquina, o piano a despedaçar-se no passeio,
o erguer do zombie. O som entre o engatilhar da arma encostada à cabeça e o PUM.
É o som da culpa. O som que se ouve quando não há volta a dar nem desculpa a pedir,
é o som que acompanha o cair das orelhas e o rabo entre as pernas.
Silêncio.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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5 respostas a É o som da distância

  1. Que texto bombástico para um dia de aniversário, Pedro. Em dia de apetecer cantar e dançar e dar os parabéns à tia, fico assim toda ao contrário. Parada, sentada, calada. A ler.
    E a reler.
    Tão bonito, isto. Até dói.

  2. nanovp diz:

    E é um som ensurdecedor….

  3. riVta diz:

    Pois. O som vem sempre depois.

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Como cão molhado depois da chuva. É que nem ladro.

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