E se não ajoelha, é porque não sabe rezar

Quem trabalha descansa, vá, melhorzinho...

Quem trabalha, descansa, vá, melhorzinho…

E SE NÃO AJOELHA, É PORQUE NÃO SABE REZAR

Marquei encontro com uma pt – personal trainer. Fizemos um plano: cinco dias de treino, dois de recuperação. Quando chega sábado estou morta, mas tenho a ressurreição garantida ao domingo, o segundo dia de descanso obrigatório e chave do sucesso: o corpo pede o treino que não tem e suspira por ele…

É domingo. Em pleno estado suspirativo, pus-me a pensar nisto de ginásios, estilos de vida ditos saudáveis, e modas mais ou menos passageiras, só para dar por mim a dizer, ó diabo!, isto não é passageiro, isto é de sempre. E não tem a ver com o corpo nem com a febre do ideal de juventude. Tem a ver com a Vénus de Willendorf e a Beyoncé, duas expressões de uma mesma coisa.

Esta que é a primeira escultura terá sido um objecto de proximidade. A Vénus de Willendorf é arte na sua forma mais primitiva, coisa tangente à magia pois é evocativa. Tenta manipular a realidade e assim se aproxima do culto e da religião.

Que desejo fechava a mão quando agarrava esta mulher abundante e nua?

O desejo de fecundidade e abundância, ao que tudo indica. E não é coisa pouca, é o garante da sobrevivência. Da mulher nua de Willendorf, e de outras estátuas similares do mesmo período e com as mesmas características, peito e nádegas proeminentes, conjectura-se que serão, digamos, talismãs.

Como se o valor do talismã se transmitisse quando é incorporado por aquela que o tem na mão – expressão reveladora, não é, ter algo ou alguém na mão? Ora, o que tem valor, tem poder.

Quem é que nunca olhou para o rabo de Beyoncé, de Jennifer Lopez? Ou para a mais willdendorfiana Kim Kardashian? Estas mulheres, para além de se depositar nelas o poder da natureza fêmea de Willendorf, poder de vida e da morte, por terem rosto, nome, definição muscular tanto quanto redondezas de estrogénio, sustêm-se nos próprios pés. Não lhes chega, a estas mulheres, serem Vénus de Willendorf, querem ter, também, a hierática inacessibilidade da rainha Nerfertiti, e a condição física da deusa caçadora Ártemis.

As mulheres estão mais musculadas e os homens mais depilados, eles estão, como nunca antes, no mundo familiar e nós, como nunca antes, no mundo profissional. É giro como até no corpo se vê, não é?

Hoje fazem-se aumentos mamários e de nádegas, lipoesculturas e dietas detox. O desejo cardinal por detrás dessas decisões não é só o de ser um objecto sexualmente apetecível. É a necessidade de ser um objecto de valor.

Fazemos agachamentos no treino como antes se pintavam os cabelos do exacto platinado de Marylin Monroe e com a mesma intenção: uma actriz de culto é uma deusa. Cultiva-se a semelhança com os deuses, seja na capela ou no cabeleireiro. Fazer como as estrelas da pop ou do cinema é a imitação dos santos dos nossos dias. O que é ser estrela? Não é iluminar? Mae West, Dietrich, Wallis Simpson, Maria Callas, perceberam cedo que o poder feminino, para ser completo, é natureza e civilização, é fêmea e macho. E, esse poder, é preciso tê-lo para sentirmos com tranquila certeza que se um homem não ajoelha diante de nós, ou fez uma ruptura do menisco, ou é só porque não sabe rezar.

Publicado na revista Epicur, Outono de 2015

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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11 respostas a E se não ajoelha, é porque não sabe rezar

  1. pedronorton diz:

    Ó menina, eu que não me depilo já espreitei o rabo da Jennifer mas não deixo de achar alguma graça às amigas do Rubens.

  2. Senhora A. diz:

    É vero. 😀

  3. CC diz:

    Tudo é relativo. Veja aqui:

    https://youtu.be/daS7qxLY9r0

    ~CC~

  4. Isto da Vénus de de Wil­len­dorf conviver neste texto com as proeminências das supra citadas, faz-me pensar que a Mãe Natureza do século XXI, que, aparentemente KIm Kar­dashian possa evocar, está transmutada e, a primeira, era capaz de se sentir ultrajada pela artificialidade da segunda. Mas, entretanto, como o objetivo é alcançar estatuto de mulher de culto, é provável, que possam partilhar o mesmo espaço.

    • EV diz:

      Já no antigo Egipto havia maquilhagem para olhos, rosto, lábios. As mulheres da corte usavam linhos tão finamente tecidos que eram transparentes. E perfumes. O poder de sedução é uma das linguagens do poder e nela inclui-se também o artifício.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Desejo de mão aberta e, logo, desejo de mão fechada. Às vezes há belos textos, mas não são pensados. A maioria dos textos bem pensados não são belos. Este é um texto belo e bem pensado.

  6. nanovp diz:

    Por poder ou não, são uns belos rabiosques…

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