Estive internado no Júlio de Matos*

A data do meu internamento no Hospital Psiquiátrico Júlio de Matos estava já marcada há quinze dias. Quando ontem chegou o dia, não pude esconder o nervosismo. À hora combinada, 19 horas, lá estava eu à porta do Pavilhão 30, com mais umas dezenas de pacientes a quem, provavelmente, teria sido diagnosticado o mesmo mal incurável, segundo dizem os especialistas qualquer coisa que a ciência médica ainda não explica bem mas que anda nas fronteiras da curiosidade mórbida e do síndrome de Stendhal. Pavilhão 30, logo aí onde, como reza a história, eram tratados os casos mais graves de distúrbios psiquiátricos. Logo à entrada, fiquei com uma ideia daquilo que me esperaria nas próximas horas: deveria mover-me pelos dois andares do edifício e do seu labiríntico circuito com uma máscara bem colada à boca, sem poder soletrar uma palavra, no meio de uma cortina de fumo, e com um som permanente de pista de aeroporto a ribombar nos ouvidos. Nada tranquilizador, portanto. Não sei se como efeito da medicação ou se como sintoma ou consequência do meu mal, certo é que me vi – fui “imerso”, na terminologia do hospital – em 1949, numa festa de homenagem ao seu Director, que, fiquei a saber, acabara de receber uma importante distinção internacional – tinha inventado a leucotomia ou lobotomia, era isso que se dizia pelos corredores. Fui então apresentado ao médico residente, Pedro, e a sua mulher, Constança. E também a Inês, a recém chegada enfermeira espanhola. Daí em diante, comecei a delirar: vejo Pedro nos braços de Inês, Constança em violenta discussão com o marido, Inês a ser raptada por um enfermeiro de nome Coelho, Pedro a resgatar Inês de uma cela do hospital e a levá-la para um quarto idílico onde – muito romanticamente, achei eu, mas, de acordo com os psiquiatras de serviço, não passaria de falsa percepção habitualmente associada aos portadores do distúrbio que levou ao meu internamento – ambos consumaram o amor que, no seu primeiro recíproco olhar na festa de homenagem do Director do Hospital, ficou logo dramaticamente selado. Escusado será dizer que a alucinante sucessão de episódios me pareceu vagamente familiar. Tudo culpa do Stendhal e das fantasias que me meteu na cabeça, não há outra explicação. Mas a coisa não se ficou por aqui: enquanto Pedro se entretém sexualmente com um tal de Afonso, colega de hospital com ares de escudeiro, o dito enfermeiro de nome Coelho volta à carga, sequestra de novo Inês e, desta vez, não faz a coisa por menos: lobotomiza—a, levando pois à prática a recente invenção do seu Director. O resto já o sabem todos os que sofrem da minha doença: Pedro apanha uma fúria, confronta o pai, perdão, o Director do Hospital, com o sucedido, e não descansa enquanto não tortura, humilha e executa em público o enfermeiro Coelho, tudo com requintes de malvadez, no mesmo acto em que obriga o staff do Hospital, com o Director à cabeça claro, e com todos os maluquinhos como eu a assistir, ao beija-mão à entretanto falecida Inês.

Se a cabeça já não funcionava bem, depois deste tratamento a que fui submetido – falta dizer que quase sempre a correr atrás dos diversos “personagens” que acabei de citar, ao longo de um sem fim de salas e corredores de meter medo ao susto -, temi que nunca mais me deixassem sair do Pavilhão 30. Qual não foi o meu espanto quando, ao fim de duas horas de sobressalto, me libertaram, a mim e a todos os que comigo entraram às 19 horas. Imaginei que aquele beija-mão à trágica Inês tivesse suavizado os ânimos do temível Director do Hospital. Acabaram a dizer-nos que não fomos mais do que cobaias. Cobaias de um tratamento – enfim, cheguei a ouvir a palavra “espectáculo”, mas terá sido, ainda, o Stendhal a fazer das suas certamente – a que chamaram “teatro imersivo”, e que até intitularam “E Morreram Felizes Para Sempre”. A ideia terá sido de um cientista muito à frente no seu tempo, um tal de Nuno Moreira. Desconfio que o Stendhal – só ele – seria tipo para lhe chamar dramaturgo. E dizem ainda as más línguas do mesmo Stendhal que quem encenou a ideia dá pelo nome de Ana Padrão – curioso, tem mesmo nome de actriz, pensei eu.

Pois é, saí do Júlio Matos pior do que quando entrei. Com a plena convicção, vejam lá, que acabara de testemunhar um espectáculo absolutamente genial, tanto na ideia como na execução. Até dei comigo a pensar que merecia uma bela festa de homenagem, assim do género daquela com que o Egas Moniz, perdão o Director do Hospital, fora presenteado em 1949. Ou talvez não, que ainda lhe daria para um fim trágico. Mas pelo menos o prémio seria mais do que devido. Enfim, o que o Júlio de Matos faz à minha cabeça.

* Dedicado à Maria, à Sofia B., à Maria João, à Sofia H. e ao Miguel, meus cúmplices de internamento

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

6 respostas a Estive internado no Júlio de Matos*

  1. teresafont diz:

    Muito muito bom Diogo. Vou ser se a segurança social ainda me dá direito a internamento. Obrigada.

  2. Miguel Almeida Mendes diz:

    Muito bom, querido companheiro de desdita. MAM

  3. Diogo Leote diz:

    Obrigado eu, Teresa, pelo crédito que ainda dá a um pobre maluquinho como eu.

  4. Como é que se pede internamento?

  5. Diogo Leote diz:

    Amigo Mam, eu é que agradeço, não fosses tu e a tua senhora, nunca teria conhecido os prazeres do internamento no Júlio de Matos.

Os comentários estão fechados.