Exegese do poema A Vida, de António Nobre

 

OLHOS NEGROS

Olhos outonais da capa de Hamlet e das gangrenas do Senhor. (sacado ao blogue de Luís Inácio)

 

Eu gosto do poema ‘A Vida’ de António Nobre. Gosto dele porque é estupidamente piegas e kitsch e mau. De uma forma tão vil e parva que me chega a comover.

Reparem no início:

Ó grandes olhos outonais! Místicas luzes! 
Mais tristes do que o amor, solenes como as cruzes! 

Só isto arruma qualquer Soares dos Passos com Vai alta a lua na mansão da morte.
Mas o poema, que é grande, continua:

Ó olhos pretos! olhos pretos! olhos cor
Da capa d’Hamlet, das gangrenas do Senhor!
Ó olhos negros como noites, como poços!
Ó fontes de luar, n’um corpo todo ossos! 

Aqui começamos a desconfiar que o Nobre está maluco ou a gozar. Mas, quando mais à frente ele insiste,

Olhos acesos como altares de novena! 
Olhos de génio, aonde o Bardo molha a pena!
Ó carvões que acendeis o lume das velhinhas,
Lume dos que no mar andam botando as linhas…
Ó farolim da barra a guiar os navegantes!
Ó pirilampos a alumiar os caminhantes, 

pensamos que o caso pode ainda ser pior do que a loucura. Pode ser tara.
E vem esta conversa de olhos a propósito de quê?
Vem a propósito do mundo que eles veem:

Mas diz, meu amor! ó Dona de olhos tais! 
De que te serve ter uns astros sem iguais?
Olha em redor, poisa os teus olhos! O que vês?

E aqui chegamos ao ponto. O que os olhos outonais, solenes como cruzes, capas de Hamlet, fontes de luar num corpo todo ossos veem, é só desgraças.

O mar a uivar! A espuma verde das marés! 
Escarros! A traição, o ódio, a agonia, a inveja!
Toda uma catedral de lutas, uma igreja
A arder entre clarões de cóleras!  

E se pensam que isto é muito, preparem-se:

E os defuntos, meu Deus! que o vento traz á praia! 
E aquela que não sai por ter usada a saia!
E os que soçobram entre a vaidade e o dever!
E os que têm, amanhã, uma letra a vencer!
Olha essa procissão que passa: um torturado
De Infinito! Um rapaz que ama sem ser amado,
E para ser feliz fez todos os esforços…

Aqui, ou estamos a rir ou a chorar. Não temos mais hipóteses.

Olha um filho a espancar o pai que tem cem anos! 
Olha um moço a chorar seus cruéis desenganos!
Olha o nome de Deus, cuspido n’um jornal!
Olha aquele que habita uma Torre de sal,
Muros e andaimes feitos, não de ondas coalhadas,
Mas de outras que chorou, de lágrimas salgadas!
Olha um velhinho a carregar com a farinha
E o filho no arraial, jogando a vermelhinha!  

Poderíamos dizer, tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado! Mas há mais, muito mais (e estou a cortar substanciais partes em que há mortos e feridos, desgraças várias e um bebé devorado por uma águia).

Olha esta noiva amortalhada, n’um caixão… 
Jesus! Jesus! Jesus! o que aí vai de aflição! 

Agora, que chegámos ao fim das desgraças que os olhos outonais das gangrenas do senhor veem, nasce-nos a filosófica pergunta:

Ó meu amor! é para ver tantos abrolhos, 
Ó flor sem eles! que tu tens tão lindos olhos!
Ah! foi para isto que te deu leite a tua ama

(eis uma pergunta que eu faço a todas as meninas que vêm ao blogue e sobretudo às que aqui escrevem e são possuidoras de olhos melhores do que as gangrenas, as capas de Hamlet e tudo o resto)

E continua o Nobre, agora, sim, com um final dramático, próprio para declamar em Academia Recreativa:

Foi para ver, coitada! essa bola de lama 
Que pelo espaço vai, leve como a andorinha,
A Terra!

Ó meu amor! antes fosses ceguinha…

Reparem que este poema era hoje impossível, porque não rima invisual com nada do que está para trás. Além de que invisual não tem a ternura inerente a ‘ceguinha’. Na verdade, o verso ‘Ó meu amor! antes fosses ceguinha…’ é o único que considero genial em todo este poema. Tem, claramente, um laivo surrealista inegável, além de poder conter em si outras interpretações menos óbvias.

Não irei por aí. A minha exegese aqui se queda. 

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

4 respostas a Exegese do poema A Vida, de António Nobre

  1. Ahahaha! o que já me ri com isto, Henrique.
    Que vida Triste, esta nossa.

  2. Frase favorita: Ó meu amor! é para ver tan­tos abrolhos.
    ( se me deixas dar uma boa garagalhada aqui vai tristemente ah ah ah )

  3. EV diz:

    Eu também gosto, Henrique! Mentalmente ainda ouço isto como Villaret o dizia – foi um dos primeiros cd que comprei, na Buchholz, há mil anos, só porque me fazia lembrar de um disco do meu avô…

  4. moa diz:

    Você é contemporâneo do autor?!!!!!!!

Os comentários estão fechados.