Fascínio traumático pós-homicídio

Alphonse-Bertillon-Murder-of-Monsieur-Canon

Monsieur Canon, assassinado e fotografado no local do crime, a 9 de Dezembro de 1914, no Boulevard de Clichy

Um post para o Pedro Norton

Eu tenho um fascínio traumático pós-homicídio do catano. Nunca matei ninguém (que eu saiba), nem tenho vontade de matar ninguém (que dê conta). Mas depois de estar morto quem alguém bem matou, quero ver tudo.

E é mentira. Tenho requintes –  de malvadez. Tenho vontade de ver dos melhores ângulos, a preto e branco, com sombras, luz e um ponto de vista singular. Um dia, em New Orleans, andava tudo a atirar colares e a ver mamas *, e estava eu, feito estúpido, numa livraria alternatívissima, onde havia livros que ensinavam a fazer bombas e outros onde jaziam corpos. Eram os corpos de gangsters abatidos, em Nova Iorque e Chicago, por outros gangsters tão bem vestidos como eles. Este livro juntava as fotografias que a melhor imprensa americana dos roaring twenties (tu sabes bem, tio Raoul Walsh, de que é que eu estou a falar) publicou, tiradas nas wee small hours of the morning, ou às horas em que os leiteiros batem à porta. São mortos bem vestidos, uma mancha de sangue no peito, dois ou três buracos nas surpreendidas costas que nunca tinham tido mais do que um.

É um dos livros de fotografia que revisito a cada ano e não veio sozinho. O outro era de fotografias de homicidas. Na prisão, condenados, à espera da morte ou de tal e pior sorte, os estudiosos dos crânios e da configuração das cabeças, medindo centímetros de testa ou a distância entre as orelhas, tentaram, fotografando-os, estabelecer o raio, diâmetro e perímetro de que se pudesse concluir e anunciar um padrão científico para a ganzada cabeça dos assassinos. Uma obra-prima do horror, obsessivamente antropométrica, com rostos que não quereria encontrar, nem bêbado, às 3 da manhã, numa rua da Pontinha (como se alguém, algum dia, me tivesse visto bêbado numa rua da Pontinha!)

Mas o que eu queria era escrever um post curto sobre Alphonse Bertillon, um francês que inventou, em 1903, a fotografia judiciária. Fotografava, de tripé, no local do crime, está claro. E fotografava sempre do ponto de vista de Deus. Um plongé absoluto, de sufocar qualquer Alfredo, sobretudo se o Alfredo for gordo como um Hitchcock. Não houve nenhum francês, nem sequer um Truffaut, que entrevistasse, há cem anos, este criminologista fotógrafo, este artista, neto de um demógrafo e filho de um estatístico, que só queria fazer “fotografias métricas”. A combinação do ponto de vista de Deus com uma grande angular parecia suspender o tempo, conferindo ao crime, à vítima e ao criminoso uma aura de eternidade, que só a solução do caso poderia porventura desatar. Sim, que outra coisa é a eternidade que não seja um nó?

Deixo-vos (e ao Monsieur Norton, a quem desafio a fotografar alguns mortos de morte matada) com duas obras geniais de Alphonse. Lá em cima, está Monsieur Canon, assassinado e fotografado no local do crime, a 9 de Dezembro de 1914, no Boulevard de Clichy. Aqui em baixo, está Madame Langlois, assassinada a 5 de Abril de 1905. As fotografias pertencem ao Arquivo da Prefeitura da Polícia de Paris.

Alphonse-Bertillon-Murder-of-Madame-Langlois-Puteaux

Madame Langlois, assassinada a 5 de Abril de 1905, no quadro do que veio a ser chamado o affaire Puteaux.

* Não me esqueci das mamas. É um costume do Mardi Gras. As damas tiram uma maminha** da blusa, exibem-na  e quem pediu para ver dá-lhes um colar que é menos do que de missangas (coisinha fatela, mas colorida). As damas vão-se enchendo de colares a noite inteira e quantos mais se têm ao pescoço, mais beleza e popularidade atestam. Um tipo bem pode mostrar o que quiser que ninguém lhe dá colar nenhum.

** Podem mostrar as duas, dá igual, só vale um colar.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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12 respostas a Fascínio traumático pós-homicídio

  1. EV diz:

    Não quero saber do bem contado que isto está, com maminhas e lailailai, é horripilante! E tudo quanto Mon­si­eur Nor­ton precisa é de argumentos…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Monsieur Alphonse Norton vai dizer-lhe das boas. E ainda lhe faz uma fotografia. menina Eugénia.

      • EV diz:

        Ó Manuel Fonseca!, você desgraça-se… então quer-me mortinha da Silva para o nosso próprio Alphonse me fotografar o cadáver?! Vou-me já embora e não falo mais consigo!

        • riVta diz:

          eh eh eh

          • Manuel S. Fonseca diz:

            Não se ria, Rita, que estas coisas da arte (em particular fotográfica) são para levar a sério. E contamos consigo para preparar a fotografia da menina Eugénia. Não sei é se é o Alphonse o artista.

  2. Luis Eme diz:

    Não gosto desse tipo de fotografia, nem sou muito curioso nesses campos. Sou dos que vê um ajuntamento à volta de qualquer acidente e continua em frente.

    A prática da “maminha de fora”, se se sabe cá no burgo, ainda fazem por aí um concurso para entrarem no “guiness”. 🙂

  3. riVta diz:

    querido Manel, Dezembro é um mês de boas recomendações. Aqui vai de Maria Rita Robles Monteiro Lino Garnel: “Vítimas e Violências na Lisboa da I República”
    Se tiver esgotado na Wook… encontra aqui:
    http://hdl.handle.net/10316/641

  4. Afinal telefonar não é melhor que postar?

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