Isto é azul?

azul

Quando eu digo “Isto é azul” como é que posso ter a certeza de que também tu vês azul no azul que eu vejo? Por essas e por outras é que os cientistas criaram um espectrómetro que é capaz de dizer “Isto é azul”, sempre que se depara com ondulações electromagnéticas cujo comprimento de onda é de 450 a 495 nanómetros. O espectrómetro não se engana. O único problema que tem é que, em boa verdade ele não tem a percepção de “azul”. Mede o que tem a medir, mas não tem”consciência” do que mede.

Que estranha diferença é essa que separa o “registo” do “sentimento”? Sentir azul ou sentir calor não é o mesmo que o espectrómetro ou o termómetro registarem ondulações magnéticas ou a temperatura.

Pode haver um mundo totalmente mensurável, sem consciência, um mundo, digamos assim, zombie? E se esse mundo for inconcebível e impossível, então o que é esse “além de” que temos de juntar às nossas experiências empíricas e às quantificáveis leis da natureza para darmos conta da “experiência subjectiva”?

É mais ou menos com estes termos, mas muito mais bem dito, que a australiana Margaret Wertheimer escreve sobre o “problema da consciência”, neste artigo da revista de filosofia “Aeon”, ligando-o à ética, à dor e ao castigo. Wertheimer percorre diferentes paradigmas conceptuais históricos e traz-nos até ao contemporâneo ringue de boxe, dominado pelos punhos da matemática e das ciências. Nesse ringue, o que fazer com a “consciência”? E se, hoje, as ciências vierem dizer que a “consciência”, esse poço subjectivo, é, afinal, crítico na descrição da realidade? A começar pela física quântica que revaloriza o lugar do observador que, pelo simples facto de ser observador, influencia activamente a construção da realidade.

Há mais, mas a minha escassa filosofia e a minha lendária ignorância científica já não conseguem resumir com um mínimo de inteligibilidade o que se segue. E o que eu quero é que comecem a ler a “Aeon”. Leiam. É uma bela revista, que tanto fala dos homens nas obras como do crash da libido nas mulheres.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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4 respostas a Isto é azul?

  1. EV diz:

    Li isto ontem, acredita?

  2. nanovp diz:

    Fui ver Manuel e convenceu-me… Vou ver se incluo na lista dos favoritos…

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