Marguerite Duras

Marguerite Duras

Esta mulher pequenina chama-se Marguerite Duras. Do que ela muito escreveu, eu li muito pouco. Não obstante, devo-lhe eu, devemos-lhe todos, e deve-lhe Alain Resnais, que foi o realizador, um filme, “Hiroshima, Mon Amour”.

Mas o que me interessa é esta fotografia de Richard Avedon. O que mais conta na foto é a irreverência dela, as destapadas pernas, a saia ligeiramente levantada, o começo da vénia com que ela ironicamente nos brinda, sabendo que a vénia devia ser nossa, por lha devermos à forma como viveu, em turbulência, toda a sua vida.

Veio das colónias, da Indochina francesa. Na II Guerra, resistente na França ocupada, os nazis levaram-lhe o marido para Dachau. Para o salvar terá mantido algum tipo de relação com um francês da Gestapo. Salvou-o. Foi comunista, mas disse das boas do camarada Louis Aragon, que por acaso tinha defendido o pacto germano-soviético cozinhado com a mão de vaca de Estaline e os pézinhos de coentrada de Hitler. Expulsaram-na.

Daí em diante, viveu em amor livre: foi mudando de parceiro e escolhendo causas, a guerra da Argélia, o Maio de 68. Paleativos para uma dor crónica só amenizada pelo álcool, essa pequena maravilha feita para disfarçar o vazio do universo. Não admira que tenha sido na companhia do álcool que correu a esconder-se na floresta negra a que se chama eternidade.

Antes, sem saber como apagar o medo de uma solidão absoluta, fez esta vénia à câmara de um fotógrafo famoso, Richard Avedon.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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5 respostas a Marguerite Duras

  1. adelia nunes da fonseca riès diz:

    Ela vivia na Ile de Saint Louis naquela altura, 1978 a 1980. Eu morava na Rue des Bernardins paralela à Rue de Bièvres onde habitava o François Mitterrand.
    Todos os dias, eu ia beber um café, atravessando a Ponte de Notre Dame. E todos os dias a via, trotinando e cumprimentando. Todos a conheciam 🙂 Optimas recordaçoes!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Prima Adélia – esse Fonseca no seu apelido não engana – quem me dera ter um dia atravessado a Ponte de Notre Dame e ter visto passar, de um lado a Adélia, do outro a Marguerite, e eu sem saber se me pendia a cabeça para a esquerda, ou se era para a direita que ela tombava. Óptimas recordações!

  2. EV diz:

    Boa photo! Atípica. Tenho de reler. Mas tenho um certo receio pois quando era miúda gostava muito…

  3. nanovp diz:

    Grande fotografia de uma grande (pequena) senhora…

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