Menino Jesus

menino-jesus

Acabo de confirmar que: a) sou muito antigo; b) sou um simplório camponês da Beira Alta. Como é que descobri? Por uma razão natalícia e simples. Quando eu era menino, aos cinco anos, em Vale de Madeira, mesmo ao lado de Pinhel, aos 6 anos, na casa do Sambizanga, em Luanda, quem me dava “os presentes” era o Menino Jesus. Eram: a) “presentes”, o que quer dizer que vinham de alguém, que neles estava presente, e não eram “prendas”, essas coisas rutilantes que o dinheiro compra, e b) o Menino Jesus deixava-os, aos presentes, no sapatinho que se punha debaixo da chaminé. Talvez descesse pela chaminé, o que não seria nada do outro mundo, uma vez que o Menino Jesus é pequenino e cabe muito bem na mais apertada chaminé, sucedendo que, além disso, o Menino Jesus tem a agilidade que a elasticidade do seu tenro corpo autoriza.

Talvez já houvesse Pai Natal, mas das duas uma: ou a) eu, parolinho e rústico da aldeiazinha de Vale de Madeira, não sabia que ele existia, ou b) a minha infantil lógica não concebia que um gordalhufo, vestido de aveludados, conseguisse voar e que, muito menos, conseguisse enfiar-se uma estreita chaminé sem ficar lá entalado, entaladíssimo. Convenhamos, eu também não sabia o que eram renas.

Gostava muito que, no futuro, em vez do Pai Natal que não existe e tem colesterol, quem voltasse a dar os presentes do Natal fosse o dono dele, esse Menino Jesus que sempre há de existir, pelo menos em cada um de nós os que, como Alberto Caeiro, o vimos espreitar debaixo das saias das raparigas.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

Uma resposta a Menino Jesus

  1. José Amaral diz:

    Serei (também) simplório? Nado e criado em Lisboa, na Zona do Areeiro – não, ainda não existia a Praça Sá Carneiro – , sempre acreditei no Menino Jesus! E mais: na véspera do Natal, engraxava sempre os meus melhores sapatos para pôr um deles na chaminé; depois, toca a ir para a cama e “…nada de espreitar!!!…” .

    Acreditei em tudo isto até ao dia em que o Sr. Prior da minha Igreja pediu aos “queridos irmãos” para contribuirem com o que pudessem “…para se vir a comprar uma televisão para a Paróquia…” .

    Eu ofertei, orgulhoso, 25 tostões!

    Passado um mês a televisão estava “…às ordens de todos!”…
    …para, uma semana depois, desaparecer da vasta sala aonde tinha sido colocada e todos ficarem preocupadíssimos e inquietos quanto ao destino da mesma!
    Expectativa na “missa das 10:00″ seguinte, a minha missa, que era a das crianças. Todos aguardavam a homilia do senhor Prior, pois ele seria o único a saber o paradeiro do precioso aparelho – para que eu TANTO contribuíra, relembro.
    ” … – Queridos Irmãos: fiquei feliz pela forma tão célere como os paroquianos responderam aos meus apelos de há um mês atrás. Porém, pouco tempo bastou para verificar ‘ … as indecências pecaminosas dos programas da televisão ; por isso, decidi guardar o aparelho da Comunidade em minha casa até verificar que tudo está ‘normalizado’. Só depois desse momento haverá condições para, de novo, voltarmos a poder assistir aos ‘telejornais’ e aos ‘Bonanzas’ “…(da época).

    Naquele momento, senti que o meu Menino Jesus tinha sido assassinado por aquele senhor mentiroso. E fiquei tão zangado e revoltado que nem sequer “aceitei” o Pai Natal como substituto, tendo saltado, de imediato, para quem já tanto fazia por mim ; e sem nada “cobrar”!…

Os comentários estão fechados.