Moçambique contra Angola

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Esta é a foto de um originalíssimo carro moçambicano. Foi assim, pelo menos, que a recebi. É mesmo de Moçambique? É, não é? Não é!

Não é porquê? É sim senhor. Quero lá saber, se não é, passa a ser – nunca disse, nem prometi vir aqui escrever a verdade, nem sequer meias verdades.

Eis, pois, um carro moçambicano, feito em Inhambane, que me lembra as lições e as provações de quando eu era pequenino. A palavra-chave era: habilidade. (E nós, de Angola, éramos muito mais habilidosos do que eles, de Moçambique).

Entre nós, candengues, a habilidade era bem vista e tinha prémios. Era uma porta para a glória. Fazíamos tudo com as próprias mãos. Fazíamos papagaios. Fazíamos carrinhos de rolamentos. Fazíamos armadilhas para pássaros, com visco. Fazíamos fisgas e o diabo a quatro. A superior conjugação da mão direita com a mão esquerda, o manuseamento magistral de uma serrinha de bolso, cortar fio de pesca com um rápido golpe de dentes, fazer cola sem gastar dinheiro na patex, eram atributos que geravam unanimidade e aclamação. Podíamos ser pobres, mas tínhamos um jeito do catano.

Vejo e revejo tudo, aqui, neste carro de bambu – a mesma cultura empreendedora, a confiança na liberdade do eu-sou-eu, foi o sou-eu-que-fiz, fui-eu-que-lhe-fiz, o improviso que dispensa protocolo de rotina e massificação. Era o que era: uma coisa meio-poética, de ingénua meritocracia. Não sei se estão a ver o género; é o género de ingenuidade que se vai embora com tanta elegância como a deste carro a virar-nos as costas.

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Um modelo de produção como este é daqueles que nunca foi à guerra por ter sido pensado por quem pensou que nem sequer havia guerra. Já se sabia que o mundo não seria nosso. Mas também não era o mundo que queríamos. Só queríamos que dissessem – foste tu? – e ficar contente. Estão a ver: o género de conforto do imbatível interior abaixo, que combina volante, manómetros e esteira.

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Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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4 respostas a Moçambique contra Angola

  1. miguel diz:

    xiii! quem te disse que vocês os ‘angulanos’ eram mais habilidosos do que nós? tens a mania pá. papagaios, carrinhos de rolamentos, fisgas, restauro de gingas decrepitas, campos de futebol em madeira com pregos para jogar com molas da roupa e esferas de rolamentos, aros de metal para fazer corridas, guitarras feitas a partir de latas de azeite de cinco litros com cordas de ‘nailon’, nem queiras saber pá.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Miguel, pô, querias que eu fosse de Luanda e não tivesse a mania? Quem tem banga é assim mesmo. E carrinhas de rolamentos também fiz, pópilas.
      Um abraço

  2. EV diz:

    Um carro de empreita… Olhe, também fiz os meus papagaios, seu vaidosão do eu faço! Mas com cola, confesso. E lacinhos de papel de lustro colorido.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Mas quem é que não sabe que a menina Eugénia é prendada, pezinhos de bailarina, mãos de fada e poética cabecinha rutilante? É a nossa heroína!

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