Não se aplaude uma canção destas

A canção chama-se Strange Fruit e é uma das angústias da minha vida. Evoca-me uma memória amarga. No fim de semana que se seguiu ao dia 4 de Fevereiro de 1961, as famílias brancas, com paus e cacetes na mão, perseguiram negros que acusavam de terroristas – lembrar-me-ei sempre de um certo ramo de palmeira manchado de sangue. Nessa tarde de domingo, perseguiram-se negros pelas barrocas que desciam do Sambizanga, em frente à Casa Branca, em direcção ao Caminho de Ferro, lá ao fundo. Eram brancos de medo que os perseguiam e o medo dá sempre má cor a quem quer que seja. Eram famílias. Sim, estavam perplexos, confusos, de cabeça e ódio perdidos. Mas matavam. Eu sei. Tinha 7 anos e ainda vi, apesar da minha mãe, aflita, me trazer logo para casa. Eu vi e já sabia que um ramo de palmeira não se fez para se encher de sangue.

strange fruit

Era novo e comu­nista. Abel Mee­ro­pol era um jovem judeu do Bronx. Dava aulas no liceu ali ao lado. Foi ele, nes­ses anos pós-crash, que escre­veu o poema.

Tinha visto a foto das árvo­res nos jor­nais. Não viu, mas adi­vi­nhou, o balanço que o doce vento devia dar a tão estra­nha fruta pen­dendo dos ramos dos valen­tes ála­mos do Sul. Mais tarde, tudo a convidá-lo ao sofri­mento, compôs a música.

O Café Soci­ety era uma cave no nº1, She­ri­dan Square, em Grenwhich Vil­lage. Bil­lie Holi­day era a atrac­ção e can­tava para uma pla­teia branca e negra – uma rari­dade no final dos anos 30.

Foi o dono, Bar­ney John­son, que apre­sen­tou o imper­ti­nente comu­nista à can­tora negra. Abel can­ta­ro­lou para Bil­lie que, dizem, pare­ceu pouco impres­si­o­nada. O des­men­tido veio dois dias depois. A voz de Bil­lie estendeu-se a todo o com­pri­mento das pala­vras. Tão dei­tada como sofrida. Uma voz a roçar a resignação.

Na pri­meira noite em que Bil­lie can­tou “Strange Fruit” não houve encore no Café Soci­ety: a feli­ci­dade amarga da razão fechou os olhos, cer­rou as mãos. Não se aplaude uma can­ção des­tas, disse um dia Bob Dylan a Marty Scorsese.

Nin­guém quis gra­var “Strange Fruit” até que um dia Bil­lie foi ter com o tio de Billy Cris­tal (sim, esse mesmo) e a can­tou a cap­pella. O disco converteu-se no seu maior sucesso.

O lin­cha­mento dos negros era uma festa de famí­lia no Sul. Vinham homens, mulhe­res e cri­an­ças bran­cas ver os cor­pos dan­çar nos ramos das árvo­res. A voz de Bil­lie Holi­day encosta-se a uma lenta amar­gura para evo­car a His­tó­ria. A sem­pre ter­rí­vel História.

Southern trees bear strange fruit,
Blood on the lea­ves and blood at the root,
Black bodies swin­ging in the southern bre­eze,
Strange fruit han­ging from the poplar trees.

Pas­to­ral scene of the gal­lant south,
The bul­ging eyes and the twis­ted mouth,
Scent of mag­no­lias, sweet and fresh,
Then the sud­den smell of bur­ning flesh.

Here is the fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bit­ter crop.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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6 respostas a Não se aplaude uma canção destas

  1. nanovp diz:

    É um arrepio que corre pelo corpo todo…uma e outra vez, sem nunca parar …

  2. riVta diz:

    Strange fruit han­ging … bit­ter crop

  3. EV diz:

    De tudo se faz poema, música… se o raio da arte não for vida, um segundo fiat, não sei que possa ser.

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