O dia em que matei o Pai Natal

 

Pai Natal. Tim Burton

Pai Natal. Tim Burton

Não me lembro do dia em que morreu o Pai natal. Mas lembro-me muito bem do dia em que matei o Pai Natal.

Acho que chovia, era Dezembro (pois claro) e o Tomás tinha cinco anos. Estávamos os dois em casa. Sós. Um jantar “à homem”. Lá para as minhas bandas é o que chamamos às salsichas com salsichas acompanhadas de Coca-Cola que eu cozinho como ninguém. Eu não sei fazer melhor e ele, que é generoso como poucos, faz por convencer-se que os homens, quando se juntam, jantam assim. Só para não me deixar ficar mal.

Como sempre acontece entre nós, conversamos a bom conversar num silêncio muito nosso. Do meu trabalho, da escola dele e das coisas verdadeiramente importantes da vida. Tipo Ratatouille e Lightning McQueen. Não quero jurar mas acho que ainda não falávamos de miúdas (naquela época e com raríssimas excepções que não vou aqui nomear, ele ainda as achava a coisa mais nojenta que Deus tinha trazido à terra). Em compensação tenho a certeza de que falamos do Benfica. E do tio Tiago, claro. Porque a morte, bem vivida do tio Tiago, sempre fez parte das nossas conversas e das nossas refeições. Para alegrar umas e apimentar outras. Em todas as famílias é essa, afinal, a função das mortes felizes. Mas desconverso.

Ia assim a noite, dizia eu. Uma noite fria e imóvel, feita de salsichas, de perguntas, de silêncios (de muitos silêncios) e dos olhares abraçados que só um pai e um filho sabem olhar. Uma noite inocente, “à homem”. Daquelas que fazem dos homens mais rapazes e dos rapazes mais homens. E foi então que o Tomás pousou o garfo, franziu a testa e fez a sua cara das perguntas difíceis. “Hoje na escola um amigo disse-me que o Pai Natal não existia”.

O tempo que já ia preguiçoso, parou uns instantes. Se eu tivesse relógio e se o relógio tivesse cuco, o passarão teria fugido dali para fora. Que se faz tarde e o ar faz-se denso. A salsicha não ia para baixo. Tosse. Mais Coca-Cola. Mais silêncio. E o disparate mais disparatado que me lembro de ter feito em todos os anos da minha vida. “O seu amigo, Tomás, tem razão”. Mais Coca-cola ainda. “O Pai Natal não existe”. E mais uma porção de asneiras gaguejadas, assim, de jorro. Sobre o significado do Natal, a importância de dar presentes aos amigos e o privilégio que é poder recebe-los.

O Tomás, que nessas coisas aprendeu tudo o que havia a aprender com o tio Tiago, fez-se forte. Ao silêncio que se seguiu, respondeu com um silêncio quase ensurdecedor de tão digno. Como se eu, insensível cretino, não tivesse acabado de matar ali, a sangue frio, à frente dele, todos os Natais da sua vida. E não fosse aquela lágrima muito, muito grossa, que só por manifesta impossibilidade física não conseguiu pôr a correr para dentro, nada teria traído a sua infinita tristeza. Silêncio, só silêncio. E eu nunca mais consegui perdoar-me.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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2 respostas a O dia em que matei o Pai Natal

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    O Pai Natal está vivo, inteirinho, aqui. Se não existia, passou a existir.

  2. Ana Maria Batalha diz:

    Que texto maravilhoso, pungente. O fim de uma ilusão é uma coisa tristíssima. E há momentos, assim pequeninos, que duram toda a vida, de tão pesados que são.

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