O instante em que Cristo pareceu ser… ateu

Eli, Eli, lama sabactâni?
(Pai, pai, porque me abandonaste?)

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‘O Rosto e as Imagens’ com o subtítulo ‘Jesus, Paulo Francisco e o Presente’ que a editora Paulinas em boa hora publica, é bem o retrato, a figura o schème ou a ilustração da necessidade de um olhar mais sábio sobre os textos bíblicos. O autor, padre Carreira das Neves, com aquele rigor e pormenor que coloca em tudo e o leva a cotejar as mais conhecidas traduções do hebraico (o massorético, do séc. IX, e a Septuaginta do séc II a.C.) preocupa-se com a necessidade de a narrativa bíblica se adaptar aos tempos. Que melhor ideia do que demonstrar como Jesus, Ele próprio, critica a imagem de certas tradições religiosas, socorrendo-se de Paulo sobre aspetos que vão da alimentação (“Todas as coisas são puras; impuro é o que sai de nós” até à forma como a Igreja se torna universal, Católica e Ecuménica, abrangendo todo o espaço geográfico conhecido.
Esta ideia de aggionarmento está particularmente presente também em São Francisco de Assis, a quem o autor, sendo Franciscano, dá particular atenção. Há uma tradição mística em São Francisco, quero crer (como há no Papa atual, coisa que o padre Joaquim Carreira das Neves deteta) que desinstitucionaliza a tradição. A literalidade com que na Idade Média se olhava para o texto sagrado, sofre com Francisco um abalo. O texto é também parábola e símbolo. O assunto torna-se mais desafiador quando se sabe – como ele salienta – que o planeta Terra à volta do Sol pertence ao último minuto da criação: há 14 mil milhões de anos houve o Big Bang; há dois milhões de anos o aparecimento da terra; há 200 mil o do homo sapiens e há dois mil o de Jesus Cristo. Ou seja, alguém da nossa era. E escreve: “Pertenço, pois, em dimensão de fé cristã, a um mundo de santos e pecadores, ou em dimensão sem fé a um mundo de homens com liberdade e autoconsciência para o bem e para o mal.
Depois de uma análise dos erros que se cometem quando se analisa a Idade Média (na qual vai buscar três autores que são igualmente referência para mim – o português José Mattoso; o francês Jacques Le Goff e o italiano Umberto Eco – recorda os três encontros de São Francisco: Com a paz e a guerra, o primeiro; com o leproso a quem beija; e com o crucifixo de São Damião. Estes três pontos fulcrais na sua vida leva-o ao respeito pela vida, por toda a vida, por toda a criatura humana, apelando aos que o seguem que doutrinem pelo exemplo sobre a Santíssima Trindade, o Baptismo e o Reino de Deus, ao invés de entrarem em bulhas com os não crentes ou os muçulmanos. Algo que só o Vaticano II consagraria por completo.
Esta revolução de Assis, mais do que um novo rosto ou imagem, é um novo ser.
É ainda no âmbito da conceção medieval que o autor nos fala da célebre carta de Inocêncio III onde se define a supremacia do poder espiritual ao temporal. O Sacro-Império, que era representado com a águia com duas cabeças (como ainda hoje o escudo da Alemanha, da Áustria e de outras paragens, significava justamente um mesmo corpo com a cabeça espiritual e a cabeça temporal. Mas aqui temos de abrir um parêntesis. Porque ao contrário do que tantas vezes é propagado, mesmo por pensadores católicos, não é tanto a Igreja que ocupa o poder temporal, como mais este último que se imiscui na Igreja. É o profano que contamina o sagrado. Talvez por compreender isso, Carreira das Neves nos diz que para além de todas as imagens está o SER e termina o capítulo com estas palavras de Jesus:
“Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso;
Não julgueis e não sereis Julgados;
Não condeneis e não sereis condenados;
Perdoai e sereis perdoados;
Dai e ser-vos-á dado” Lc 6, 36-38

Já na idade moderna, o ateísmo parece querer substituir o teocentrismo e o laicismo o teocratismo. Eu devo dizer que não tenho fé suficiente para ser ateu. Confesso que deve ser necessária muita fé, pois tudo é o seu contrário também, para em nada crer.
A visão monista ou unitária do Universo, que na idade média serviu a Igreja, passa depois a servir a ciência. Tudo tem de ter uma explicação e tal explicação deve ser oriunda de uma teoria unificada. Na verdade, o monismo tanto serve o teísmo como o ateísmo.
E ainda que estejamos longe de conhecer a teoria unificada, pensamos conhecer o início dos tempos. Ainda que, naqueles 14 mil milhões de anos de que falámos, o espaço de tempo igual a 10 elevado a menos 13 do início seja considerado uma singularidade. E o que é uma singularidade? Um milagre? Deus? O sopro da criação?
Esta necessidade de se abandonar a visão literal teocrática e teocêntrica de todas as atividades, está bem expressa, como já atrás referi, em São Paulo. E São Paulo é com o padre Joaquim. Ele que escreveu ‘São Paulo dois mil anos depois’, não podia deixara de ir buscar a essência do seu pensamento.
E esta é que a São Paulo o que interessa não é o Jesus histórico (como tantas vezes refiro). “Apenas lhe interessa o Jesus da fé”. E, sendo que cronologicamente é o primeiro a falar de Jesus, não deixa de ser interessante esta abordagem onde tudo é símbolo e onde o kairos se sobrepõe ao kronos, porque a vinda final do Messias, a Parusia, está para breve. Mas que breve é este? “O tempo encurtou”, diz na I carta aos Coríntios. É uma vez mais o Ser e não o Schèma que lhe interessa. E nesse ser, há o mandamento de Jesus, a sua tecla mais batida – o amor.
É aqui, também que o Jesus histórico, que neste livro se cita com base nos evangelhos sinópticos, se levanta contra a imagem tradicional do judaísmo. Jesus vê o homem de dentro para fora, a partir do fundo, do SER. É aqui, em Marcos 7,1-13 que diz que nada há fora do homem que entrando nele o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem é que o torna impuro.
Ou seja, o que entra no homem, não vai ao coração, mas ao ventre e o que sai – os maus pensamentos, os roubos, prostituições, assassínios, etc. saem-lhe do coração. Curiosamente, São Paulo que não pode ter lido o evangelho de Marcos (por já ter morrido, informa-me o autor, quando este foi escrito) chegara à mesma conclusão do que Jesus.
Carreira das Neves, depois de discorrer sobre as teorias de Jesus como um revolucionário, que também foi, mas não apenas isso, leva-nos à reflexão sobre a sua relação com São João Baptista. Que é sobretudo altamente simbólica, como simbólicas são as tentações que o demónio lhe faz, cuja primeira tem como resposta a celebérrima frase. “Nem só de pão vive o homem”, como recusa da riqueza em troca da alma – argumento para tanta literatura, com os diversos Faustos, cujo mais famoso é de Goethe, até ao Retrato de Dorien Gray, de Oscar Wilde, e como simbólico é o início da pregação do Reino de Deus, o Sermão da Montanha, meu preferido:
“Por isso vos digo: Não vos inquieteis quanto à vossa vida, com o que haveis de comer ou beber, nem quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir. Porventura não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que o vestido? Olhai as aves do céu, não semeiam nem ceifam, nem recolhem em celeiros e o vosso Pai Celeste alimenta-as (…) Porque vos preocupais com o vestuário? Olhai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam! Pois eu vos digo: Nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles” Mt 6, 25-29

A simbologia e a parábola são de facto os grandes artifícios dos evangelhos sinópticos (porque em João há muito simbologia e nenhuma parábola).
Também toda a relação de Jesus com o que as profecias de Isaías é outro dos pontos altos do livro. Jamais os meus fracos conhecimento chegariam para verificar quanto de paralelo existe:
“Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas perdidas, cada um seguindo o seu caminho. Mas o Senhor carregou sobre ele todos os nossos crimes. 7Foi maltratado, mas humilhou-se e não abriu a boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro, ou como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador. 8Sem defesa, nem justiça, levaram-no à força. Quem é que se preocupou com o seu destino? Foi suprimido da terra dos vivos, mas por causa dos pecados do meu povo é que foi ferido. 9Foi-lhe dada sepultura entre os ímpios, e uma tumba entre os malfeitores, embora não tenha cometido crime algum, nem praticado qualquer fraude. 10Mas aprouve ao Senhor esmagá-lo com sofrimento, para que a sua vida fosse um sacrifício de reparação. Terá uma posteridade duradoura e viverá longos dias, e o desígnio do Senhor realizar-se-á por meio dele.” Is, 53 6-10
Qualquer um diria que isto, do AT, tratava da paixão de Cristo.
Do muito que havia e há a dizer sobre esta obra queria – e para que a possam desfrutar com apetite – gostaria de deixar apenas mais duas notas:
A primeira, no capítulo Jesus e os 12 (apóstolos, claro), onde o padre Joaquim, continuando na demonstração da aplicação do simbolismo dos textos bíblicos à atualidade, salienta que o mundo de Cristo não é machista nem patriarcal (embora reconheça que pouco ou nada se sabe sobre os apóstolos em si);
A segunda sobre a Ressurreição. Onde escreve que é uma narrativa de simbologia transcendental. Há uma argumentação sobre a questão da vida depois da morte, mas o padre Joaquim vai buscar os símbolos como o terramoto que rasga o véu do templo, descrito em Mateus, ao mesmo tempo que se abriam os túmulos e os corpos de santos ressuscitavam.
Em suma, é um livro de e para quem se interessa pelo momento que atravessamos. Momentos de desesperança, em que necessitamos de um sermão da Montanha, momentos de tristeza, em que precisamos do humor que Thomas Halik, aqui citado, vai buscar a Chesterton, o grande romancista católico, que recomendava aos ateus serem cristãos, pois no cristianismo, por um instante, Cristo pareceu ser ateu.
Mas é acima de tudo um livro para interpelar. Interpelar de que modo as ciências e as novidades da modernidade se combinam com a essência do Ser, ultrapassando a mera imagem; é a interpelação que nos fazem aqueles que sofrem, os que têm fome, os que estão doentes. Ou seja, como escreve Carreira das Neves, “É nesta dialética da imagem ao ser, da imagem ao Mistério de Deus, apresentada por Jesus Cristo, que vive o cristão, o crente e o não crente”.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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5 respostas a O instante em que Cristo pareceu ser… ateu

  1. nanovp diz:

    Apetece já comprar…o tema,com uns poucos dois mil anos mantém-se o grande tema da actualidade…

  2. Luiz Miguel Alcide d´Oliveira. diz:

    O seu texto tem pelo menos o mérito de suscitar reflexões e comentários. Limito-me a dois bem conhecidos. Uma reflexão respeita ao eterno problema da difícil convivência entre “Fé” e “Racionalidade”. Resolve-se assim: “não é possível demonstrar que Deus existe, mas também não é possível demonstrar que não existe”. Um comentário relativo ao facto de S. Paulo (a problemática alternativa de Pedro, discípulo e pescador) já ter morrido quando Marcos escreveu o seu Evangelho remete para outro princípio. “Quando A está correlacionado com B, três casos devem ser considerados: A influencia B, B influencia A ou C influencia A e B.” Para meu uso pessoal, centro-me em três pontos: O Pai Nosso, a Oração da Paz e a frase inspirada no juízo do Centurião: “Senhor, não sou digno que entreis na minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo”. Sobre o resto, penso que São Tomaz de Aquino, Doutor da Igreja, estava cheio de bom senso quando terá dito, antes de morrer, “tudo o que eu escrevi é palha”. Boas Festas e continue a acertar e a errar como até aqui.

  3. Jose de Sa diz:

    Lendo isto, é como se tivesse ido à missa do Galo. Continuação de Boas Festas, Henrique!

    • hmbcm1956 diz:

      Pode não ter ido à missa do Galo, acho que Deus liga pouco a coisas dessas. A consciência de cada um é que sente se há ou não falta, sendo que Ele liga à consciência de cada um

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