O milagre nunca se fará

 

 

James Whistler

James Whistler

Sempre quiseste que se fizesse minha a negra culpa que era só tua. Não me lembro da primeira vez. Não podia lembrar-me, não podia lembrar-te. Mas sei que eras tu. És uma metástase da alma. Estás, na escuridão negra do teu calvinismo imenso, antes e depois de mim. Antes e depois do pecado. Estás por todo o lado. Estás o tempo. És o tempo. O teu, o meu, o de todos quantos nos precederam, o de todos os que nos sobrevierem. És Caim e Abel. Circular, eterno, cansado mas destinado a ser. Para sempre. És assassino, ladrão, perjuro. És Virgílio mas perdeste a esperança. Não é Beatriz, morta de morta, que te guia, que algum dia te guiou. És tu mesmo que volteias, sombrio de desnexo. És a dor. Cravo-te os dedos na alma mas ela é só fímbria, é só sombra fugidia de um sentimento que nunca verdadeiramente houve. E eu, que latejo sozinho, deixo-me, a espaços que são brevíssimos, enganar pelo teu toucado. Pelo teu tocado. O teu amor é cor de goma mas, sabe-lo bem, far-se-á amarelo, depois castanho até adormecer em negrume que é a única cor que cheiras e o único odor que sabes distinguir.

Pinto-te – não deixa ser cruelmente irónico, o paradoxo – para que sobrevivas. Para que me sobrevivas. Crucificado num qualquer museu que há de ser Paris. Negro de mentira branca. É a única vingança que posso permitir-me. Tudo o mais seria ceder ao teu Deus de ira. E esse, podes estar certo nunca existirá para mim. O milagre, o milagre com que há de sonhar Dreyer, nunca se fará. E é disso, só disso, que me vês sorrir. O fim do teu Deus é o princípio do meu Paraíso. Ouves, sem virar a face, sem perturbar o óleo, o outro lado da minha gargalhada?

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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