O monge que queria ver o sublime

 

 

Monge junto ao Mar. Caspar David Friederich.

Monge junto ao Mar. Caspar David Friederich.

Queria ver o sublime. Nada mais mas também nada menos. O lugar onde a sua pequenez humana se faria risível, o lugar onde o tempo se fazia ninguém. Fora o Cristo sorridente que lhe jurara, numa das noites negras de mosteiro, que, para lá do norte e para lá do Sul, fora a própria pitonisa quem perguntara “Que é feito daquele para quem eu guardava um reino puro de espaço e de vazio, de ondas brancas e fundas e de verde frio?“. Profecia milenar que não só o negava a ele, negava Cristo, mas negava também o Pai e todos os anjos e santos do firmamento. Porque a verdade, percebia-o agora, depois da longa jornada, era que ali ainda nada separava as águas das águas. Ali não havia chão seco, não se viam ainda luzeiros, e a própria luz estava também sem forma e vazia. Ali eram só as trevas do início dos tempos. As trevas e o vento impetuoso que as cobria. Ali era o lugar antes da Criação, o tempo onde Deus não cabia, muito menos cabia o Cristo que, enganador, lhe parecera sorrir.

Era tarde, era noite, para voltar para trás. Caminhara mil anos e a sua fé foi escurecendo até se fazer breu. A alma, tinha-a pequena. Um carvão em espasmos de cinza. O futuro era ondas brancas e de verde frio. Tudo ao revés do que lhe sorrira o Cristo. Tudo ao revés do que lhe ensinara o mosteiro. Mas ele não se arrependia. Deixara as vestes de andarilho e voltara a fazer-se monge. Ortodoxo, báltico, gelado de noites que nunca deixavam de o ser. E era na profundeza desse fim do tempo que refazia, de si para si, a própria aliança. Deus era ele. Sempre fora. O Mundo, sonhara-o. Nunca verdadeiramente existira. E agora que finalmente contemplava o sublime, imenso de dilúvios, vastíssimo de apocalipses, dava por si a sorrir por nunca o ter criado.

 

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.

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4 respostas a O monge que queria ver o sublime

  1. Flor diz:

    é um prazer, acompanhar os seus textos.

  2. Pedro Norton diz:

    obrigado Flor! Volte sempre.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Bem sonhado este incriado mundo.

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