Ó Tia, temos a vida ali fora

Ó Tia, visses tu estes campos cobertos de neve e estas mulheres de capucha e socos na esgravata por um raminho ou pinha que lhes avive a lareira. Visses as vitelas, enregeladas, aninhar-se contra as mães, os chocalhos (património) com badalos calados pela geada que, gelando, os tornou hirtos, sem forma de tocar a campânula.

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Ó Tia, se te mostrassem as giestas sem flores, quase sem ramos, raquíticas, a guardarem-se para o esplendor primaveril e os pinheiros magros, escanzelados como cães vadios, a inclinar-se à ventania de tal modo que neles lemos o medo que têm de ser arrancados pela raiz.

Ó Tia, se acaso detivesses o teu olhar numa cabana de colmo, abrigo de pastores, seja do frio e da chuva, seja do lobo que por estas serras ainda os há; cabanas construídas contra as pedras de granito que lá estão, dizem, desde os mouros, pois não há nada mais velho de que este povo tenha memória; de tal modo que um dólmen com três milénios é, pela boca destes simples e sem desmentido do padre, conhecido por casa dos mouros, pois eles as imaginavam assim.

Ó Tia, se ouvisses os gritos dos homens, que vindos da Senhora da Piedade gritam ‘à coa; à coa’, pois assim lhes ensinaram que devem gritar para espantar o lobo e qualquer outra alimária que por ali se lembre de passar.

Ó Tia, se a natureza, bela, limpa, lavada e dobrada que é uma falda da serra da Nave te pudesse emocionar mais que um livro de Dostoievsky ou um poema de Whitman e se uma noite estrelada, sem uma nuvem e com a temperatura a rondar graus negativos te comovesse por perceberes que ali não era o fim, mas o princípio do mundo.

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Ó Tia, se nunca nenhum de nós conseguiu sequer aproximar-se da alegria que há nesta tristeza de um lugar onde Judas perdeu as botas e os calcantes do poder nunca pisaram; se nunca vimos nem inverno frio, nem primavera colorida, nem verão soalheiro nem outono amargo que fôssemos capazes de descrever com a exatidão de um matemático. Se os jogos das malhadas e os compassos dos manguais não nos entram no ouvido, assim como nos escapam as quadras das janeiras

(Viva a nossa querida Tia
Com as fauces cor de cereja
Que é a rapariga mai linda
Que entra aqui na nossa Igreja

Ao entrar pela nossa porta
Quebra-se qualquer enguiço
E por tão bem lhe queremos
Passe-nos cá um chouriço
)

ou a alegria das vindimas, ali mais acima para os lados da Varosa. Qual o quê. Nós, como diz o Drummond, escrevemos a vida sem nunca nos determos para a ver. Eu é o que faço. Anda a política numa fona e eu atrás dela a ver se a entendo, sem entender que o mundo anda ali, nas curvas do rio Mau, nos pauis onde crescem as coives, nos animais que moram nas lojas debaixo das casas.

Ó tia, sabemos o quê, ao fim de quatro anos?

Sabemos que Escrever é Triste, porque aqui estamos sempre, entre quatro paredes, à luz da lâmpada ou da tímida janela que deixa entrar o Sol que os outros prédios permitem, a representar a vida. Mas a vida, Tia, está lá fora.

Eu já a vi, mas acho que já não sei escrevê-la.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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3 respostas a Ó Tia, temos a vida ali fora

  1. EV diz:

    E agora está um bocadinho cá dentro porque isto ainda não tinha visto e acabei de ver, de nariz gelado desse frio enquanto entre quatro paredes aceno à minha lâmpada.

  2. Teresa Conceição diz:

    Mas olhe como sabe cantá-la, ó Henrique.
    Dezembras com essa voz nem debaixo da neve se encontram. Que passeio bonito.

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