Os desejos impossíveis

dom quixote, albert dubout

Desenho impossível de Dom Quixote. De Albert Dubout para a edição francesa de 1938

A ideia é simples: fazer a lista dos nossos desejos impossíveis. Não estou a falar dos improváveis, como seja o caso de manter romance simultâneo e simultaneamente ardente com Keira Knightley, Marion Cottillard e Scarlett Johannson. A sonhar, sonhemos os desejos impossíveis, os que fisicamente não são realizáveis. Peço o impossível, mas com regras: apenas 5 desejos impossíveis. 

A minha lista:  

  1. Falar com Deus. Olhos nos olhos, uma conversa sobre o bem e o mal, com esclarecedor preâmbulo sobre o Nada e de como é que do Nada que Nada se faz Tudo pode ser feito (se é que alguma coisa se Fez e Algo existe).
  2. Ser a mosca que assistiu à tormentosa noite em que Van Gogh cortou a orelha. Imagino que a mosca terá voado do quarto da mulher cujos favores Gauguin e Van Gogh disputavam, Rachel de seu nome e suponho-a pulposa, seguido os dois pintores aos gritos pela rua até se terem fechado no mistério de que a casa de Arles é a guardiã muda e insensível.
  3. Ser a névoa dos olhos de Jorge Luis Borges.  Perceber a cinza o mundo e o seu labirinto. Decifrar os ténues traços das formas: os rigores do branco e negro de um tabuleiro de xadrez, o vago amarelo do poderoso tigre de Bengala, o velado espelho de impossíveis reflexos.
  4. Ser o Cristo na cruz. Saborear a majestade de tanto sofrimento, pensando: sou o salvador. E, em revolta, poder gritar ao Pai: Elohim, Elohim. Lama sabactâni.
  5. No último minuto salvar Joana d’Arc da fogueira. Levá-la depois a galope para o escondido castelo e, já salva, cabeça tão rapada como a da Jean Seberg, mostrar-lhe os mimos de um prosaico quotidiano, cafezinho da manhã juntos, ler os jornais diários, alguns abusos por baixo da mesa e tudo o mais que lhe evitasse a glória da beatificação e a chatice da santidade.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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