Renato Sanches

renato

Foi ontem. A bola era dele. Corria solto pela esquerda, na cabeça um cacho de glicínias negras. Empurrava a sua equipa para a frente e esticou mais um bocadinho o jogo, metendo a bola no ala, que logo lha devolveu. E não sei se foi vaidade ou imaginação, mas veio-lhe, como uma seta, a vontade – dali, donde estava, a 30 ou 35 metros da baliza, saiu-lhe dos pés um grito. Inclinou ligeiramente o corpo para a frente, a perna direita veio atrás e foi logo à frente, potente, intencional, sem reticências. Rematou como rematam os génios. A 30 ou 35 metros e a bola foi, um avião, um Mig, com a trajectória imperceptivelmente arqueada de uma bala disparada a longa distância. Um estádio hipnotizado a olhar, um só homem, de verde, um guarda-redes, o guardião da baliza adversária, todo no ar, a saber, como Heitor em Tróia, que ia tombar morto no chão, a morder a poeira amarga da derrota.

Foi golo, foi o golo de Renato Sanches, 18 anos, sem idade para fumar ou beber. Com idade só para o esplêndido exercício da beleza. Matou Heitor e não tem calcanhar de Aquiles.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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6 respostas a Renato Sanches

  1. EV diz:

    Quando era pequena, o meu avô levava-me com ele ao futebol. Costumava ver homens com uma telefonia mínima! encostada ao ouvido enquanto viam o jogo e não percebia porquê: estavam a ouvir o relato.

    Vi o jogo. Mas gostaria de ter ouvido o seu texto! BENFICA!

  2. Luis Eme diz:

    Texto curto, simples, mas com tudo dentro.

  3. nanovp diz:

    Não vi, mas ouvi dizer que foi esplendoroso…

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