Ressuscitar*

Podemos voltar atrás ? Podemos criar caminhos sobre  o entulho dos nossos erros, das nossas ambições defraudadas? Pode um homem ressuscitar e nascer de novo ?

Conseguimos mudar, descobrir novos sentidos antes desconhecidos, escondidos que estavam na sombra da ambição desmedida ou apenas perdidos por detrás de  desencontros repetidos?

E o que queremos pedir ao outro, como se fosse um  último gesto ? Como nos deixámos ficar tão sozinhos?

Custa engolir a dor, a bola na garganta  que quer explodir…

“I just don’t want  you to hate me”

Haverá um pouco de esperança no rasgo de luz que denuncia o dia, mas a cada esquina escorregamos, caímos, os olhos encontram o chão, a terra.

Não é fácil , não é possível nascer de novo, ou talvez seja…

“I am here”

Que maior dádiva será possível para além de ter o outro aqui ao lado. Só por isso valerá a pena nascer de novo.

 

*Inspirado no filme The Wrestler, de Darren Aronofsky.

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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3 respostas a Ressuscitar*

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    “I just don’t want you to hate me” mais humilde não há, Bernardo.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Pois é mesmo isso : o desânimo leva tantas vezes à humildade…“I have been driven many times upon my knees by the overwhelming conviction that I had no where else to go” Lincoln…

  2. EV diz:

    A primeira vez nascemos das nossas mães, todas as outras nascemos das nossas mortes: a vida é uma coisa maravilhosa. Gostei muito, Bernardo.

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