Saudade Ingrata, meu Cão

Ai que Saudade Ingrata, meu Cão

Esta noite sonhei – bem, sonho sempre. No meu sonho havia um poema que tinha feito, pequenino, oito versos: durante muitos anos escrevi poemas assim ou ainda mais pequenos, e à volta de uma música de ouvido a ritmo certo. No próprio sonho fazia o que faço na vida acordada: não é preciso apontar, quando for escrever, recordo-me. E como na vida acordada, zás, esqueci-me.

Há isto, o tempo, um mistério que ainda não conseguimos agarrar e avançamos na cronologia. Até na da escrita. Tinha grandes planos e escrevia pequenos poemas. Agora tenho mínimos planos e escrevo poemas longos. Interessava-me encontrar o fio da música entre os versos, dentro dos versos e segui-lo. Agora só quero saber da vida à escala microscópica do indivíduo. A vida dos outros é o nosso melhor espelho. A nossa está muito perto dos nossos olhos, não se consegue ver, desfocamos tudo. Quando escrevo todos os eus são meus. O teu também. Escrevo eu, mas é mentira, eu é tu. Ou eu que já não há. Posso ser um homem. Posso ser mesmo o eu que eu fui e pipa no céu. Ou uma mulher que tive por vizinha, uma caneta de gente, uma linha, e cinco filhos como se nada fosse, ai mal tive tempo de chegar ao hospital, que aflição tinha-o no carro, disse ao meu marido, despacha-te Zé Manel que o miúdo ainda bate com a cabeça no tapete. Ouvi. Um pedaço de perfeita ficção. Lembro-me exactamente até do casaco tal qual uma manta que ela tinha vestido. Foi no café ao lado de casa. Há vinte e tantos anos, quase trinta. Ainda eu gostava de pão de Deus misto e aquecido na tostadeira. Ainda bebia Ucal de chocolate, de vez em quando. Há isto, o tempo em que gostei de chocolate, o tempo em que escrevia pequeninos poemas nos cadernos de capa dura da Papelaria Fernandes. Coisas assim de antes dos vinte anos, coisas da idade das certezas absolutas e de quando o mundo é para sempre e o que não tem remédio nunca terá:

Enquanto pela distância nos idealizamos
amamo-nos porque o Absoluto é nosso –
Absoluto que partimos ao lavar pratos e copos.

Não queria nada ter os meus vinte anos de volta, nem o pão de Deus nem o leite com chocolate. Aquela saudade ingrata do Chico Buarque, não dos vinte anos, dos doze anos, não conheço. Mesmo porque posso sempre fazer grandes planos e poemas pequeninos.

E no entanto, hoje disse ao Cão enquanto o metia no carro com cuidado, já fomos mais novos, tu e eu. Dantes, o Cão saltava para o banco do carro, molas nas patas – como raio um cão tão pequeno, pequeno como um poema, saltava para o banco de um carro tão alto? Com a puta da cronologia está surdo e não tem molas nas patinhas em verso com rima cruzada. Nem eu tenho. Ó Cão…

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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3 respostas a Saudade Ingrata, meu Cão

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    O seu Cão é um romance, os seus poemas longos, vai ver, ainda chegam a ser Vida.

  2. Senhora A. diz:

    Também sinto saudade. De tudo.

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