Shooting the shooting

Tim Hetherington - Infidel

Tim Hetherington – Infidel

São três homens diferentes uns dos outros. Muito diferentes. O primeiro, para quem a câmara escura é um lugar ensombrado, é um homem discreto e sábio que na firmeza do disparo procura sempre a verdade e nisso é quase a antítese do segundo. O segundo é vaidoso e compulsivo mas dotado de uma perseverança que o leva a transformar-se no próprio objecto que busca, numa versão aparentemente artificial do terceiro. O terceiro é como o primeiro mas com um coração do tamanho do mundo, tão belo que se te entranha na pele, sempre ligado aos outros por linhas que só os seus olhos focam mas a quem o calor do sol eventualmente viria a comer as asas que o faziam voar. São todos os três sem excepção o perfeito produto de uma irrequietude crónica, de uma espécie de sede de viver que lhes devora as entranhas e os leva a esticar a corda até ao limite. Até muito perto da morte. Sempre de câmara na mão capturando o possível e o impossível, o visível e o invisível.

Ao longo dos últimos sessenta anos cobriram os três, cada um por si, no seu tempo e à sua maneira, mas todos juntos num mesmo propósito, alguns dos maiores filmes de horror do planeta. Quase todos direi. Do Biafra à Síria, passando pelas selvas incendiadas do Vietname, pelas ruas sangrentas de Beirute, pelo genocídio do Camboja e também do Ruanda, pela loucura colectiva dos povos da Libéria e do Congo, pelo anacronismo assassino da antiga Jugoslávia, pela inutilidade brutal do Afeganistão e por fim pelo caos esquizofrénico da Líbia. E é aqui, na Líbia que tristemente o terceiro fica e o segundo ia ficando.

Três homens e três histórias de coragem, loucura, humanismo e auto determinação, sem fronteiras nem limite de velocidade.

Don McCullin – “McCullin” 2012

Matthew VanDyke – “Point and Shoot” 2015

Tim Hetherington – “Which Way Is the Front Line From Here?” 2013

Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.
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