Somebody to love: canções hippies

glick

A minha paixão por Grace Slick é o que se pode dizer uma paixão a posteriori. Mal conhecia a imagem de Slick no final dos anos 60, tinha eu 15, 16 anos.  Não havia televisão em Angola, no cinema nem cheirá-la, nos jornais, vi um dia a Vanessa Redgrave com um braço à frente do nobre e naturalíssimo peito e desmaiei.

Ouvia-lhe a voz, a de Slick, quando ouvia os Jefferson Airplane.  Era a vocalista. Ela começava a cantar e saía-lhe logo toda a angústia ética daquele tempo:

When the truth is found
To be lies
And all the joy
Within you dies

“Quando descobres que a verdade é só mentiras e dentro de ti toda a alegria morre”, cantava ela. E tudo o que voz dela cantasse era a verdade, a verdade da rainha do reino hippie. Corriam lendas sobre os concertos dos Jefferson Airplane, que ela dormia (acordada, bem entendido) com os espectadores que escolhesse. A ideia da mulher que escolhe, a ideia da mulher rainha, foi uma criação de Grace Slick.

Depois, mais tarde, descobri-lhe a imagem e soube, a arder, que ela podia ter cantado nua, se quisesse. Não é só por ser bela, por ser belíssima. Era mais do que bela, emanava sexo, vitalidade (a filosófica Madame Paglia, que tanto, por isso, gosta da Madonna, havia de gostar muito mais dela). Uma cara de miúda do bairro, mas com lábios e com boca, Um corpo bonito, quase banal, mas com a graça do lírio abaixo, se assim se pode dizer.

GraceSlick

Cantou em Woodstock. Logo pela manhã. A noite fora de bandas com som compacto, pesado. E chegou ela e os seus Jefferson Airplane. Nascia o sol e ela a cantar. Não quis saber da letra, só quis saber se havia, à frente dela, somebody to love. Enlouquecida pelo sol, gritava bons-dias, sorria com doçura e acreditava que, ali, naquele dia, sobre aquela multidão, nascia a “new dawn”.

Por mais que eu afivele, agora, o meu sorriso cínico, a verdade é que foi uma nova manhã. Descobríamos que a única superioridade ética era a de amar. Muito.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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