Spirit in the sky: canções hippies

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Ó meu lindo polegar.

Ando com vontade de voltar aos meus tempos hippies. Tinha 15 anos e usava calções rotos, quando não se usavam calções rotos; deixara de cortar o cabelo, o que me indispunha com o Senhor Mário, meu barbeiro e mentor; trazia flores no cabelo, o que enervava as aspiracionais e ascendentes miúdas betinhas da minha rua. Que interessa, se eu extravasava paz e amor! De mim, brotavam ondas açucaradas de amor pela humanidade, por brancos e negros, pelas divinas mulatas, pelo merceeiro e pelo sub-chefe da polícia, pai da jovem Ana Maria, tão extemporaneamente convertida ao casamento monogâmico.

Cantava, mas sobretudo dançava, na rua recentemente asfaltada, as óperas rock que chegavam. E se já não posso voltar atrás, volto pelo menos às canções desse tempo, ao tempo psicadélico de Norman Greenbaum, um tipo de Massachussets que andara por bandas como a Junk Band e, talvez, o Lovin’ Spoonful. Tenha ele cantado o que cantou, Spirit in the Sky foi a sua única canção. Espacial, cheia de beeps entre os versos (uma coisa inspirada em Jimi Hendrix, claro), Spirit in the Sky era uma canção feita em terra, mas já a pensar no céu:

When I die and they lay me to rest
I’m gonna go to the place that’s the best

Greenbaum é, como o nome indica, judeu, mas a canção farta-se de beijar, numa de peace and love, Jesus Cristo, que era exactamente o que eu, por volta dos 16 anos, reconvertido, queria voltar a fazer, embora no meu caso, vantagens de católico, me desdobrasse em beijos a Jesus Cristo e a sua querida mãe, Nossa Senhora.

Esta é a primeira canção de uma série intitulada “Canções Hippies”.
(Como me canso depressa, não sei se chegarei às dez, nem sequer se chegará a haver segunda.)

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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4 respostas a Spirit in the sky: canções hippies

  1. nanovp diz:

    Foram algumas as coisas boas que os Hippies trouxeram, a música claro…. Mas também as maminhas ao léu …

  2. EV diz:

    Foi fresca a juventude da sua geração… por causa da falta de tecido para a roupinha, claro!

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