Star Wars

Escrevi este texto sobre Star Wars em 1984, há 31 anos. Foi para o Ciclo de Cinema de Ficção Científica. Organizou-o o João Bénard na Cinemateca e na Gulbenkian. Por vontade dele, dividimos os textos em quase metade-metade, o que me deixou temente e tremente. O João era o meu Obiwan Kenobi e eu mal me atrevia, nessa altura, a ter opiniões pessoais. Passe a minha admiração pela trilogia e por George  Lucas, este ainda é, por isso, um texto meio-neutro, procurando produzir mais informação do que opinião.  

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A primazia das sensações puras

Quando se inscreveu no departamento de cinema da Universidade de South Califórnia (USC), George Lucas ignorava tudo sobre a matéria. Os seus antecedentes também não o recomendavam: o único cinema de Modesto, sua cidade natal, frequentara-o apenas aos sábados à tarde, por distracção ou para o “engate”. Mas quando, na USC, viu os filmes de Norman McLaren, foi como se o tocasse o Espírito Santo: tornou-se um apóstolo. Os seus filmes escolares foram curtas-metragens, que a influência de McLaren cobre, dizem, como uma renda, e afloravam temas tão diversos como a música de Herbie Hancock, um poema de e.e. Cummings, ou o muro de Berlim. O último, rolando já sobre outras esferas, era uma utopia negativa: THX 1138, que em 1984 a Cinemateca revelou em Portugal.

Como o protagonista de Star Wars, Lucas teve a sorte de encontrar o seu Obiwan Kenobi, na figura de Francis Coppola, ainda para mais master de uma companhia, a Zoetrope, que lhe produziria a primeira longa-metragem, versão melhorada e ampliada do mencionado THX. Era uma incursão pela ficção científica (“fc”), embora Lucas frise tratar-se mais de uma “ficção sociológica” de inspiração académica. Em todo o caso, as raízes do binómio Lucas–”fc” pareciam lançadas. Inesperadamente, American Graffiti, obra se­guinte, sai-lhe não só comovida e terna, mas muito, muito nostálgica. Mesmo formalmente, é deslocada do padrão–Lucas, não se lhe reconhecendo a monocromia (grandes superfícies brancas, só com alguns toques de cor) que comanda THX e Star Wars. Este último é, evi­dentemente, o regresso, pela porta grande, à “fc”.

Dir-se-ia uma carreira em zig-zag. Mas Lucas defende, ele próprio, uma ideia diferente: “THX representa o que eu pensava quando estava na USC, com 20-21 anos, e andava preocupado com o que se passava no mundo; é a cólera dos jovens contra a opressão. American Graffiti também sou eu, mas alguns anos mais cedo, quando andava no liceu. Star Wars sou ainda eu, mas há muito mais tempo, quando tinha 10-11 anos e ia à escola”. Lucas sublinha, com esta leve ingenuidade,  a linearidade da sua carreira (mesmo que seja uma linearidade regressiva), dando aparente razão aos que o acusam de crescente “escapismo”, ingente questão adiante tratada.

Star Wars, transformado pelo público (dos 6 aos 80!) em top-moneymaker da indústria cinematográfica nos idos dos anos 70 (até à chegada de E.T., em 1982), laureado com 6 Oscars, constitui, ainda hoje, com Voyage dans la Lune de Méliès e 2001 de Kubrick, a santíssima trindade do cinema de “fc” e marca, também, o momento em que o “género” reconquista o paraíso, graças à omnisciente electrónica e ao omnipresente computador. São de vulto as inovações técnicas introduzidas. A principal “revolução” talvez seja a dos efeitos especiais em movimento, que John Dykstra conseguiu obter por meio de uma câmara, em sua homenagem baptizada dykstraflex, ligada a um computador que guarda a informação das panorâmicas, travellings e outros movimentos executados na filmagem de um plano. Ao filmar, a seguir, os modelos e miniaturas, a câmara reproduz automaticamente os movimentos memorizados pelo computador. Deste modo, quando os dois planos distintos, o da acção e o dos modelos, constituem o plano compósito, coincidem com exactidão. São 365 os planos em que efeitos destes ocorrem, bem evidentes na sequência do ataque da esquadrilha à Death Star, enquanto em 2001 havia ao todo 150, com o “defeito” de serem fixos, “purgatório” contra o qual Kubrick e o seu homem dos efeitos especiais, Douglas Trumbull se bateram em vão. (Ao todo, há 685 planos de efeitos em Star Wars, o que, se hoje é uma “insignificância”, em 1977 foi uma revolução).

Também os efeitos especiais sonoros (diálogos e sons diversos, o que nada tem que ver com a música de John Williams) constituíram então um prodígio técnico: o que se falou (e ninguém se calou) da qualidade mecânica da voz de Threepio, bem como das linguagens inventadas dos alien, exemplos de uma técnica que, nas palavras de Ben Burtt Jr., seu autor, consiste em “fa­zer a voz roçar contra si própria”. Outro título de glória, este para John Stears, é o da criação do admirável dueto (Laurel e Hardy?) “robotizado”, R2-D2 e C-3PO (e este amável 3PO é só uma chapelada ao Homem de Lata do Feiticeiro de Oz).

Note-se que Kubrick é um pouco o S. João Baptista de todas estas coi­sas. Em 2001 conseguira que as imagens resultantes da projecção frontal chegassem ao público como imagens de primeira geração e, na Laranja Mecânica, fez a primeira tentativa de uso do Dolby nas misturas de som, anunciando o que Star Wars consegue concretizar pela pri­meira vez, a saber, dar aos ouvidos do espectador um som igualmente de primeira gera­ção. As relações técnicas com Kubrick são muitas, como se vê, e não foi por acaso que Lucas escolheu os es­túdios e a técnica inglesa para Star Wars, como o autor de 2001 já antes fizera.

Houve, no entanto, umas vozes “austeras e autorizadas” que logo se interrogaram sobre o efectivo interesse deste fo­go de artifício tecnológico, quando o resultado é uma “regressão” inexplicável do pró­prio cinema, e um enredo tipo fast-food, com algum simplismo mental a substituir o “Ketch-up”. Mal sabiam o que estava para vir… Como o não sabiam as maravilhadas criancinhas (hoje quarentões, ou quase) que, à saída do filme, diziam para a televisão: “I’ve seen the future and it works”. Opiniões contrapolares já se vê, tão maniqueístas como, declarada e deliciosamente, Star Wars o é.

Afinal o maniqueísmo “interno”, a que condena as personagens, converte-se numa complacente tolerância “ex­terna” e Star Wars dá generosa razão a todos os seus espectadores e a todos os seus críticos. Têm razão os que falam de um pastiche de narrativa ou de mitos tão puros como os da Távola Redonda e Siegfried. Não se nega razão, também, aos que acham nele uma vulgarização sobranceira dos ensinamentos Zen. E até para os que têm o complexo de que, não sabendo bem porquê, “isto cheira-me a fascismo”, lá está a cena da entrega das medalhas aos três heróis galácticos, homenagem cinéfila à marcha de Hitler, Himmler e Lutze em direcção ao monumento de Nuremberga no Triunfo da Vontade de Leni Riefenstahl.

Justamente porque o “conteúdo” é uma superfície estaladiça, não me pa­rece mal chamar, a vossa atenção para o ritmo da narrativa em vez de nos colarmos à narrativa tout court. Como vale bem a pena chamar a atenção para a estrutura cromática em vez de se ficar angustiado com a estrutura moral. (Aviso-vos de que esta primazia das “sensações puras”, também não escapou ao zelo da crítica vigilante, que vê nela uma mistificação monstruosa instigando os mais pavlovianos mecanismos do pobre espectador).

Então, repare-se. Tatooine, planeta de Luke, fornece-nos a analogia certa para designar o ritmo da primeira parte (até à cena do saloon): Star Wars é uma planície com súbitos relevos. Isso mesmo é o que confirmam as caminhadas dos dois robots fugitivos e o voo raso do veículo descapotável de Luke. A segunda parte é toda em ritmo slam bang, inspirada tanto na banda desenha­da (as peripécias de Luke, Solo e Leia nos corredores da Estrela da Morte), como nas pinball machines, caso clamoroso do ataque rebelde ao único ponto fraco da Death Star.

Em estilo telegráfico, aponto-vos ainda a unidade “lugar de acção-cor”, cujos grandes vectores são o deserto amarelo pálido, em que habitam Luke e Obiwain Kenobi, a Death Star cinzento metalizado e a base verde vegetal dos rebeldes. Manda a vossa paciência que eu acabe aqui, sem falar do Rito de Passagem que Star Wars é para o protagonista, sem falar da figura parental representada por Kenobi, sem falar do Mal, tão mau que só Peter Cushing, com o seu passado de Dráculas e Frankensteins, poderia representar, sem falar sobretudo da falsa (ou verdadeira?) pista que é a legenda inicial, situando Star Wars num passado distante: “A long time ago in a galaxy far, far away…” .

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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Uma resposta a Star Wars

  1. EV diz:

    Que bonito dizer de João Bénard o seu Obiwan Kenobi…

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