Variações sobre Caillebotte

Caillebotte é um dos pintores preferidos de todos quantos amam Paris ou de todos quantos amaram em Paris. Caillebotte, Gustave, é a solidão de Hopper trazida para um quotidiano urbano novecentista em que se insinua um movimento por vir ou acabado de se fixar. Instantes que se congelam ilusoriamente na tela para dela livremente se soltarem, nesses antes e depois de vias múltiplas que existem em todos nós. Para que futuro olha o jeune homme perdido à janela? De onde vem, apressado, o casal que foge da chuva num Boulevard de Paris? Quem é o homem que reflecte sobre o futuro no Pont de L’Europe? que Europa é a sua? Que Europa foi a sua? Que Europa sonha construir? E a quem pertence a casa burguesa que afagam, com esmero,  os Raboteurs no pino do Verão? Haverá festa mais logo? Ou são os senhores que chegam de mais um verão em Deauville? Andam para quantos frentes diferentes e vêm de quantos passados distintos? Caillebotte brinca com o presente para nos deixar inventar mil passados, sonhar outros tantos futuros. Os quadros de Caillebotte tem todos frente e verso. Verso e reverso. Futuro e Passado. E é esse presente que, por um infinitésimo de segundo, resolve esconder-se num sem tempo infinito, que atrai. É expressão máxima de Liberdade. Liberdade só. O que é muito diferente de só Liberdade.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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