Variações sobre Hopper.

A América não seria verdadeiramente América sem Hopper. E ao Mundo faltaria sempre alguém que lhe pintasse a melancolia e a solidão. Melancolia pintada por dentro para que cada um de nós a espreite, impudico, no curto espaço de uma tela. Solidão, solidões pintadas a um, a dois, a três e a quatro, para que cada um de nós nela possa silenciar-se, e para que, de cada uma delas, possa fazer sua.

Não há América, não há melancolia, não há solidão sem a loira que desistiu de viver o filme mas assombra ainda o cinema. Sem o bairro em frente à nossa janela, em frente a todas as janelas do Mundo, onde o tempo brinca eternamente a Domingo. Sem a casa, que mais tarde se fez de Terrence Malick, e aos pés da qual dorme, serpentífera, nas planícies do sul, a via férrea que era o caminho de todos os encontros e de todos os abandonos. Não há amarelo mais só do que o da mulher que espera, sentada, um amor que nunca virá. Ela sabe-o, nós sabemos-lo, mas todos o calamos. A solidão quer-se assim. Envergonhada. engolida. Ou, quando muito, timidamente verde, feita jardineiro que persegue a relva à beira da morada que já não é de ninguém.

Não há Verão sem o Maine e não há Maine sem Hopper. Só nele se faz o azul claríssimo das manhãs esquecidas a brincar. Só nele se faz o farol que recorta, numa perfeição de dia transparente, a raríssima esperança que aqui e ali pontua o seu universo de pintor envergonhado. E se é de azul que falamos, falemos também de Pierrot. Que é branco mas que é inimaginavelmente triste e, nesse sentido, é também azul. Só em Hopper, aliás, todas as cores se sentem, por direito próprio, absolutamente azuis.

E eu deixo-me ficar, na melancolia de uma solidão a dois, de mãos dadas, num silêncio que  diz tudo,  e percorro-lhe, as vezes sem conta que são as contas da minha memória feliz, todos os museus onde já fui visitá-lo. O Withney que é a sua morada primeira, Chicago, Boston, Madrid, e até Londres onde todos os fragmentos da sua imensa melancolia, se voltaram a reunir numa manhã de Outono que não poderei, nem quererei, jamais esquecer.

Foi Hopper, azul, amarelo, vermelho e branco que descobriu a alma da América. Que lhe descobriu a solidão e a melancolia por trás do bulício apressado de todos os dias. Isso garanto-vos eu com uma certeza que é certeza de mãos dadas.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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2 respostas a Variações sobre Hopper.

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Levantou-se ali um vento sobre a minha solidão.

  2. Pedro Norton diz:

    Desde o sjostrom que vento e solidão rimam na perfeição.

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