Matei-os a todos, claro

[I]Killed them all, of course” (“Matei-os a todos, claro”). Em matéria de televisão, esta terá sido, talvez, a frase do ano. Foi a última que se ouviu no sexto e derradeiro episódio de um dos acontecimentos televisivos do ano nos EUA, o extraordinário documentário da HBO The Jinx: The Life and Deaths of Robert Durst. Só por si, teve o condão de meter na cadeia Robert Durst, um dos herdeiros mais ricos do país, membro de uma família que fez fortuna no ramo imobiliário em Nova Iorque (só para terem uma ideia, os Durst, ou a Fundação que leva o seu nome, são donos de quase todos os edifícios de Times Square).

Convém explicar o contexto: Robert Durst era suspeito de três homicídios, incluindo o da sua ex-mulher Kathie – cujo misterioso desaparecimento em 1982 não levou, ainda mais misteriosamente, a qualquer acusação judicial sobre o próprio nos trinta e três anos que se seguiram -, e de outros dois pobres coitados (Susan Berman e Morris Black) que tiveram o azar de privar de perto com Durst e ficar a saber demais sobre as suas anteriores actividades criminosas. Dos três homicídios suspeitos, apenas um, o de Morris Black, ocorrido em 2001, chegara a ter consequências para Durst: detido sob a acusação de homicídio de primeiro grau e desmembramento de cadáver, acabou libertado após um julgamento em que os seus hábeis advogados, explorando inteligentemente as fragilidades da legislação criminal do estado do Texas, alegaram legítima defesa do seu cliente – no Texas, por incrível que pareça, o mais impiedoso assassino pode evitar a condenação assim mesmo, basta que alegue legítima defesa e passa a ser o Estado a ter de refutá-la para fazer a prova da intenção criminosa.

Acabou por ser o próprio Robert Durst e a televisão a fazerem o que anos e anos de investigação policial e judicial não conseguiram: inadvertidamente, enquanto estava na casa de banho e ignorando que ainda tinha o microfone ligado depois de concluída a entrevista que (a seu pedido) dera ao realizador Andrew Jarecki , iluminou o que até então (por muita desconfiança que a sua personagem suscitasse) ainda estava na escuridão, proferindo a lapidar frase auto-incriminadora  “Killed them all, of course” (isto, claro, sem menosprezar as eventuais questões legais que a falta de consciência da gravação poderá ainda vir a levantar em termos de prova).

Para além do seu impacto como soundbyte (encheu páginas e páginas dos jornais americanos), a “confissão” de Durst consolidou, simbolicamente, uma nova era: num momento em que os media tradicionais e os próprios órgãos de polícia criminal parecem ter cada vez menos recursos para investigar, os canais privados de televisão e de streaming, sintomaticamente, fazem as vezes da justiça. Ou para preencherem o seu vazio, como aqui aconteceu. Ou para a questionarem, como, ainda mais recentemente, o não menos extraordinário documentário da Netflix Making a Murderer (tal como The Jinx, também dividido em episódios, como um qualquer thriller policial ficcionado de televisão) exemplarmente mostrou.

 

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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Uma resposta a Matei-os a todos, claro

  1. PT diz:

    Fã que sou de programas sobre crimes reais (com culpados apanhados) tenho curiosidade em perceber qual a vertente de “Making a murderer”. Se sentir um tanto de sensacionalismo com motivação de audiências, passo. Gosto de informação mas sem oportunismo ou sensacionalismo. Mas como ainda nada vi, resta-me aguardar.
    É tão fácil uma pessoa esquecer que tem micro e ir ao WC!
    Não entendi os detalhes mas pela gravação, penso que o que ele diz não seria suficiente para o condenar diante da (in)justiça Americana. Ele podia alegar que estava a dizer o que muitos supunham que ele tinha feito, ou a ironizar e até referir que em nenhum momento disse “Eu” (matei-os a todos). Mas é a justiça dos EUA… a mesma que disse que o OJ Simpson era inocente 🙁

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